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01 maio 2011

Magnólia Mater

à minha mãe
com todo o carinho e admiração


Salve! Magnólia
de gestos delicados

Divina sois Vós
entre as árvores

Da terra Vos elevais
entre a fragilidade daqueles
que sob os céus se movem
madureceis

Dolorida e alva floresceis
com um raio de sol centrípeto
o frémito da avassaladora ternura
de uma rosácea pétala

Tenazmente enfrentais
cada rude sopro
e não obstante
as inúmeras folhas que verteis
nunca deixais de florir

Com Vossas seis canções
nos embalai
e frondosa, verdejante
purificai em nós
a locomotriz vontade de sonhar

A doçura Vossa nos dai hoje
alimentando em nós
o radioso sorriso de criança
que ainda em nós vedes
que um dia fomos, seremos

Perdoai as nossas tentações
subtil e esplendorosa sedutora
e acolhei-nos na Vossa sombra
cálido regaço maternal

Sublime fruto terrestre
influxo da vontade de viver
reflexo da própria vida

Com Vossa força guerreira
cuidai de nós
agora e sempre
mesmo além da morte

Salve!
Magnólia Mater

Lobo das Estepes @ 2002

12 abril 2011

a inevitabilidade da tragédia



Quando se ajoelhou no chão para beijar uma aranha morta, o anjo que vive escondido na sombra do remorso segredou-lhe ao ouvido: «Essa paixão pelas coisas flamejantes é um animal revoltado contra a inevitabilidade da tragédia».

A mulher com olhos de peixe respondeu-lhe que ela própria era uma cidade em chamas. Saiu à rua; sentou-se a ouvir a alegria dos pássaros esmorecer.

Depois do vento lhe soprar as escamas do rosto e frio da noite lhe beijar os pés, enforcou-se no umbral da porta porque lhe faltaram os fósforos para incendiar a misericórdia do tempo.

06 abril 2011

Sopa para três

O meu mais recente conto. Não sendo micro, é pequeno (duas páginas). Já notei que faz confusão a algumas pessoas a escrita "abrasileirada", mas eu gosto muito assim como está, amanham-se! :p

online » Sopa para três

banda sonora » "chega de saudade"

24 fevereiro 2011

microCONTO

No centro da pista, o DJ cego pressentiu uma mulher serpenteando ao ritmo hipnótico da White Party. Abrindo as asas, sobrevoou a multidão e iniciou um voo espiralado ao encontro do chamamento magnético. Chegado junto dela, leu-lhe o nome, gravado no anel: Íris? Eu chamo-me Marco. Quando os lábios de ambos se uniram e o amplexo cruzou o ar, todos os presentes na festa despiram as vestes brancas e fizeram luzir os corpos multicolores.

Lobo das Estepes @ 24.fev.2011


banda sonora » banda sonora » oryx - "once upon a time"

20 janeiro 2011

mulheres

a todas as colegas da turma

pedro, depois arranjo um para ti (ou nós)


todas as tardes me assomo à janela
e oiço o balançar do vento nos pinhais.

há muito se silenciaram os sussuros das mulheres
quando deixavam o vale, rumando ao colo dos donos.

lembro-me quando descia às lezírias
para espiá-las: ruminando ao sol,
aguardando a cobrição do vento...

chegava-me a elas, na calma do poente.

deslizava-lhes a mão pelo dorso manso,
sentia-lhes o calo da vara, as ígneas marcas de posse.

ajoelhava-me junto aos ventres macios,
escutava o cadenciado pulsar das memórias.

cheirava-lhes o sexo quente e luzidio,
sorvia-lhes do úbere a água cristalina.

deitava-me com elas na terra quente
embalado pela lenta canção do estio.

essas mulheres, a fiar-me na palavra dos ciganos,
consta que foram todas mortas e vendidas.

disse-me um, muito velho, muito magro:

não se deve matar uma mulher espezinhando-a,
porque ela se multiplica e solta depois
muitas outras mulheres, sujas, pelo sexo.


terminou, depois, muito sério:

há-de, a mulher, ser morta com um pontapé
fulminante, no coração.


lobo das estepes @ julho de 2010


banda sonora » "Dark Night Of The Soul"
by The Kilimanjaro Darkjazz Ensemble

18 janeiro 2011

Promessa e Oração

Amor,


na primeira vez em que nos deitarmos juntos, vou aninhar-me recém-nascido entre as tuas Pernas, a cabeça pousada no teu Ventre morno. Embalado pelo teu pulsar vindo do fundo, vou amadurecer a Loucura e a Ternura, sem as quais não se pode Voar. O Cheiro do teu Sexo, ali tão perto e tão quente, vai entrar-me a jorros pelos Poros e alimentar-me os Músculos famintos de vigor.


Nutrido, vou levantar-me e levar-te nos Braços até junto do Pórtico de Fogo. Entraremos de Mãos dadas no Jardim dos Prazeres. Ganharemos Asas e sobrevoaremos os pomares férteis onde as Árvores dançam e perfumam de âmbar o Ar acabado de lavar por uma Chuva mansa. Poisaremos num prado onde cada Flor é a prova viva e delicada de que nada é impossível.


Faunos e Anjos olhar-nos-ão sem inveja nem crítica quando nos deitarmos, esplêndidos e luzidios, no manto de Pétalas brancas que o Tempo, entretanto parado, estendera para nos receber. Pôr-me-ei sobre ti, possante e meigo. Receber-me-ás, fecunda, com o Dorso generoso afagado pelo Vento.


Inauguraremos, assim, a época da Cobrição.


Lobo das Estepes @ Janeiro de 2011

17 janeiro 2011

YOU HAVE BEEN WARNED


"Como ousar encarar as mulheres que escrevem, subversivas? Mulheres de intensidade e inteligência? Profundas, abissais. ...Mulheres que escrevem com o ventre nas estrelas, severas ou sorridentes, travessas, sensuais. ...Mulheres que escrevem são um perigo! ...Mulheres que escrevem fazem seu tempo, marcam a história, revelam horizontes, abrem caminhos, revelam-se o caminho. Mulheres que escrevem são senhoras de muitos mistérios! Conhecedoras de noites e bichos recônditos!"

Marcelino Rodriguez


E acrescento: toda a fêmea é bicho vil, cheio de enleios e encantos mil.

Ai daquele que, incauto ( julgando-se Dono e Senhor daquele território das Trevas ) caia no seu ardil...

Sofrerá dores, desencantos ( agonias piores do que doce cordeiro em fundo covil ).

Terá visões dantescas, desejos de morte, qual peregrino cego pela mais ingénua demência febril!

Tenho dito.

25 dezembro 2010

17 dezembro 2010

Dança das Flores

coisa em forma de poema,
resultado de um exercício colaborativo
ao jeito de cadáver esquisito heterodoxo.



De que forma andam as flores?
Andam de mão dada, como eu e a morte.

E onde estão elas agora?
Repousam no colo das crianças,
ronronando como gatinhos.

E o que cantam? E o que dizem?
Cantam como náufragos, ansiosas
por alcançar uma nuvem que as acolha.

Mas como pode um veleiro correr
por entre as nuvens sem naufragar?
O veleiro é a minha forma de ser
e as nuvens o elo de ligação incessável.

E se tudo te fosse dado, na palma da mão?
Eu sentiria a ondulação bravia do mar
e a serenidade terrestre, propagando-se pela vida
de uma forma nunca imaginada.

Mas se a morte me oferecesse, ao entardecer,
um relógio sem ponteiros, eu adormeceria
na floresta de corais floridos e medusas
enfeitiçadas por lendas jamais escritas.


Lobo das Estepes e Edera de Diana
© dezembro de 2010

10 dezembro 2010

Rima de Natal

É Natal, é Natal
já nasceu Jesus.
Coitadinho, pobrezinho,
vai morrer na cruz!

© 2010 Lobo das Estepes

08 dezembro 2010

pequena fábula

esta noite tive um pesadelo:

sentado no ramo duma árvore
que ardera, com uma maçã vermelha
na mão, esperava que chegasses.

perdoa-me, mas cheguei a duvidar
que viesses, e chorei um pranto
mudo, que desceu em catadupa
todos os degraus, que fumegavam.

formaram um rio, os miríades de lágrimas
argênteas, cujo leito era o caminho
que levava ao esquecimento de tudo
o que luzia e jaz agora no fundo do mar.

mas eis que chegaste, esvoaçando.

agitaste os cabelos, os ossos,
os tendões incandescentes.

esticaste as pernas, finas,
frias, com escamas de vento.

ergueste o bico de oiro, a noite
parou pra te ouvir cantar.

levei a maçã vermelha à boca,
que beijei, como se te trincasse.
desci, com três pulos, a escarpa
de prata ardente, pra te receber.

estendi a mão, pra te cariciar
o dorso de pétalas de acácia,
mas quando te toquei não estavas lá.
devias ser a sombra de um gato.

eram cinco para a meia noite, quando adormeci.

mal acordei, com marcas de garras gravadas
no coração, mordi fundo a maçã vermelha
que me saíra, quente, do ventre, e escrevi
este poema maligno que, a ti, dedico.

lobo das estepes @ junho de 2010

03 dezembro 2010

salamandra de fogo

quando ao crepúsculo a salamandra
de fogo sai do ninho deixa atrás de si
um rastro helicoidal de palavras
que arfam quando lidas de perto

tu a labareda de línguas
equinas e macias
que crepitam nos meus
dias internos e opacos

eu a salamandra iridescente
que te esgaravata o dorso
e sonha cardos
à sombra da lareira

enquanto ardo congemino
apocalípticas madrugadas sentado
no alto dos teus joelhos

perscruto a ravina
carmesim que me olha
imensa e me comprime
as carótidas até à asfixia

é então que morro
e renasço, másculo, luzidio
sob a campânula de veludo húmido
imarcescível que é o teu ventre

desdobro os braços, abro a boca
arfo, e num cântico profundo inundo-te
de seiva translúcida desde as raízes
dos pés às folhas dos cabelos

sou o fruto helicoidal do teu fogo
brando, endógeno, que queima
quando tocado por dentro


Lobo das Estepes @ 2009

05 novembro 2010

miniCONTO » Alors on danse


"Mãe, estou só!
Estás só o quê?
Só a chamar-te!
"
fátima pais




— hey mommy!
— qd pudermos tc, mete o MSN available, ok?

MSN reply » yo moma appears to be offline.

— c'mon mommy! tá'zaí?

MSN reply » go nudge someone else, kid.

— ah... ok...

(kid is now offline)

— olha. só kria contar uma cena... tá'jaber?

— olha. vou prá night beber uns xots

(twenty minutes later)

— não xperes por mim acordada. txau!

alors on danse

04 novembro 2010

miniCONTO » humanossauro

"Quando acordou,
o dinossauro ainda estava lá.
"
Augusto Monterroso




Era uma vez um humanossauro.

Conheceu um opiossauro; extinguiram-se e foram felizes para sempre.

Entretanto, acordei com o som dos saltos de oito centímetros da french-maid do andar de cima. Abri os olhos e já alguém havia inventado: o fogo, a roda, o comando remoto, o microondas, o tédio e a inveja.

Quem me dera eu ser um microorganismo unicelular, adormecido no fundo do lago amniótico da Mãe Gaia.