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12 abril 2011

a inevitabilidade da tragédia



Quando se ajoelhou no chão para beijar uma aranha morta, o anjo que vive escondido na sombra do remorso segredou-lhe ao ouvido: «Essa paixão pelas coisas flamejantes é um animal revoltado contra a inevitabilidade da tragédia».

A mulher com olhos de peixe respondeu-lhe que ela própria era uma cidade em chamas. Saiu à rua; sentou-se a ouvir a alegria dos pássaros esmorecer.

Depois do vento lhe soprar as escamas do rosto e frio da noite lhe beijar os pés, enforcou-se no umbral da porta porque lhe faltaram os fósforos para incendiar a misericórdia do tempo.

24 fevereiro 2011

microCONTO

No centro da pista, o DJ cego pressentiu uma mulher serpenteando ao ritmo hipnótico da White Party. Abrindo as asas, sobrevoou a multidão e iniciou um voo espiralado ao encontro do chamamento magnético. Chegado junto dela, leu-lhe o nome, gravado no anel: Íris? Eu chamo-me Marco. Quando os lábios de ambos se uniram e o amplexo cruzou o ar, todos os presentes na festa despiram as vestes brancas e fizeram luzir os corpos multicolores.

Lobo das Estepes @ 24.fev.2011


banda sonora » banda sonora » oryx - "once upon a time"

20 janeiro 2011

mulheres

a todas as colegas da turma

pedro, depois arranjo um para ti (ou nós)


todas as tardes me assomo à janela
e oiço o balançar do vento nos pinhais.

há muito se silenciaram os sussuros das mulheres
quando deixavam o vale, rumando ao colo dos donos.

lembro-me quando descia às lezírias
para espiá-las: ruminando ao sol,
aguardando a cobrição do vento...

chegava-me a elas, na calma do poente.

deslizava-lhes a mão pelo dorso manso,
sentia-lhes o calo da vara, as ígneas marcas de posse.

ajoelhava-me junto aos ventres macios,
escutava o cadenciado pulsar das memórias.

cheirava-lhes o sexo quente e luzidio,
sorvia-lhes do úbere a água cristalina.

deitava-me com elas na terra quente
embalado pela lenta canção do estio.

essas mulheres, a fiar-me na palavra dos ciganos,
consta que foram todas mortas e vendidas.

disse-me um, muito velho, muito magro:

não se deve matar uma mulher espezinhando-a,
porque ela se multiplica e solta depois
muitas outras mulheres, sujas, pelo sexo.


terminou, depois, muito sério:

há-de, a mulher, ser morta com um pontapé
fulminante, no coração.


lobo das estepes @ julho de 2010


banda sonora » "Dark Night Of The Soul"
by The Kilimanjaro Darkjazz Ensemble

18 janeiro 2011

Promessa e Oração

Amor,


na primeira vez em que nos deitarmos juntos, vou aninhar-me recém-nascido entre as tuas Pernas, a cabeça pousada no teu Ventre morno. Embalado pelo teu pulsar vindo do fundo, vou amadurecer a Loucura e a Ternura, sem as quais não se pode Voar. O Cheiro do teu Sexo, ali tão perto e tão quente, vai entrar-me a jorros pelos Poros e alimentar-me os Músculos famintos de vigor.


Nutrido, vou levantar-me e levar-te nos Braços até junto do Pórtico de Fogo. Entraremos de Mãos dadas no Jardim dos Prazeres. Ganharemos Asas e sobrevoaremos os pomares férteis onde as Árvores dançam e perfumam de âmbar o Ar acabado de lavar por uma Chuva mansa. Poisaremos num prado onde cada Flor é a prova viva e delicada de que nada é impossível.


Faunos e Anjos olhar-nos-ão sem inveja nem crítica quando nos deitarmos, esplêndidos e luzidios, no manto de Pétalas brancas que o Tempo, entretanto parado, estendera para nos receber. Pôr-me-ei sobre ti, possante e meigo. Receber-me-ás, fecunda, com o Dorso generoso afagado pelo Vento.


Inauguraremos, assim, a época da Cobrição.


Lobo das Estepes @ Janeiro de 2011

25 dezembro 2010

08 dezembro 2010

pequena fábula

esta noite tive um pesadelo:

sentado no ramo duma árvore
que ardera, com uma maçã vermelha
na mão, esperava que chegasses.

perdoa-me, mas cheguei a duvidar
que viesses, e chorei um pranto
mudo, que desceu em catadupa
todos os degraus, que fumegavam.

formaram um rio, os miríades de lágrimas
argênteas, cujo leito era o caminho
que levava ao esquecimento de tudo
o que luzia e jaz agora no fundo do mar.

mas eis que chegaste, esvoaçando.

agitaste os cabelos, os ossos,
os tendões incandescentes.

esticaste as pernas, finas,
frias, com escamas de vento.

ergueste o bico de oiro, a noite
parou pra te ouvir cantar.

levei a maçã vermelha à boca,
que beijei, como se te trincasse.
desci, com três pulos, a escarpa
de prata ardente, pra te receber.

estendi a mão, pra te cariciar
o dorso de pétalas de acácia,
mas quando te toquei não estavas lá.
devias ser a sombra de um gato.

eram cinco para a meia noite, quando adormeci.

mal acordei, com marcas de garras gravadas
no coração, mordi fundo a maçã vermelha
que me saíra, quente, do ventre, e escrevi
este poema maligno que, a ti, dedico.

lobo das estepes @ junho de 2010

03 dezembro 2010

salamandra de fogo

quando ao crepúsculo a salamandra
de fogo sai do ninho deixa atrás de si
um rastro helicoidal de palavras
que arfam quando lidas de perto

tu a labareda de línguas
equinas e macias
que crepitam nos meus
dias internos e opacos

eu a salamandra iridescente
que te esgaravata o dorso
e sonha cardos
à sombra da lareira

enquanto ardo congemino
apocalípticas madrugadas sentado
no alto dos teus joelhos

perscruto a ravina
carmesim que me olha
imensa e me comprime
as carótidas até à asfixia

é então que morro
e renasço, másculo, luzidio
sob a campânula de veludo húmido
imarcescível que é o teu ventre

desdobro os braços, abro a boca
arfo, e num cântico profundo inundo-te
de seiva translúcida desde as raízes
dos pés às folhas dos cabelos

sou o fruto helicoidal do teu fogo
brando, endógeno, que queima
quando tocado por dentro


Lobo das Estepes @ 2009

05 novembro 2010

miniCONTO » arma indelével


Acordo com o bater esgazeado
duma gaivota na janela.

Levanto-me; dispo a t-shirt
com que limpo depois o sangue do vidro.

Penso:
sou a arma indelével.