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13 junho 2011

O Mar de Fernando Pessoa

Em homenagem a Fernando Pessoa pelo seu 123º aniversário

Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
 
Fernando Pessoa, in Mensagem

Amanhecer

(Devaneios de uma mulher solitária)

O sol nasceu.
Vi-o espreitar pela janela do meu quarto.
Foi-se libertando aos poucos das brumas da noite.
Lentamente. Em farrapos cinzentos que sobem em espiral.

Tudo começa a tomar forma.
 As árvores.
As casas.
As sombras
E o campo de milho suspira baixinho.

De repente.  Num gesto de ternura.
Tudo brilha laranja na minha alma.
Sofrida.

Nunca me senti tão só.
Tão vazia.
Tão perdida.
Tão cansada.
Nunca um amanhecer foi tão dorido.

E no silêncio do meu quarto
(enquanto um coro de pássaros me dá os bons dias).
Penso em ti.
Na força que emanas.  
Nas palavras que me sussurras ao telefone.
Nos momentos em que estivemos juntos.
Quando éramos descontraídos.
Quando os dias eram brancos e os sonhos azuis.

Lembras-te?
De mãos dadas. Os dois.
Entrelaçados em ilusões
Em promessas.
Sussurradas na calada na noite  
Em quimeras de prazer
Que se desvaneceram esfarrapadas
Como a neblina da aurora.

Estremeço.
Será que o sol ainda brilha lá fora?

Afasto a cortina.
E espreito a manhã.  
O mundo inteiro grita em tons de verde e ouro.
Numa orgia de beleza e cor.
Que me seduz num gesto gracioso
Mas a minha alma está demasiado enfadada.
E temo em participar na festa 
Que o sol me convida.

Fecho os olhos. 
Recordo outros amanheceres.
Quando acordava enlaçada a ti.
Ou a outro alguém.
Apaixonada.
Embriagada.
Pensando que ia ser sempre assim.
Acordando devagarinho nos braços do Amor.

Ou então 
Quando dava os bons dias no topo do mundo.  
Quando o sol me engrandecia 
E pensava que o mundo era meu.
Senhora do meu do destino.
Rainha dos meus desejos.
Outros tempos.
Outras vidas.

Não quero pensar mais.

Abro os olhos.
O sol inunda o meu quarto.
Convida-me a sair.
Mas sinto-me esgotada.
Deixo-me embalar pelos sons.
O vento.
O milho.
O sino.
O galo.
Suspiro.

Fecho mais uma vez os olhos.
Buscando forças para enfrentar mais um dia.
Sei que ainda acreditas em mim.
Vou tentar.
Prometo.

Amanhã…
Será apenas mais outro Amanhecer!

@esmeralda (Agosto 2004)

01 maio 2011

Magnólia Mater

à minha mãe
com todo o carinho e admiração


Salve! Magnólia
de gestos delicados

Divina sois Vós
entre as árvores

Da terra Vos elevais
entre a fragilidade daqueles
que sob os céus se movem
madureceis

Dolorida e alva floresceis
com um raio de sol centrípeto
o frémito da avassaladora ternura
de uma rosácea pétala

Tenazmente enfrentais
cada rude sopro
e não obstante
as inúmeras folhas que verteis
nunca deixais de florir

Com Vossas seis canções
nos embalai
e frondosa, verdejante
purificai em nós
a locomotriz vontade de sonhar

A doçura Vossa nos dai hoje
alimentando em nós
o radioso sorriso de criança
que ainda em nós vedes
que um dia fomos, seremos

Perdoai as nossas tentações
subtil e esplendorosa sedutora
e acolhei-nos na Vossa sombra
cálido regaço maternal

Sublime fruto terrestre
influxo da vontade de viver
reflexo da própria vida

Com Vossa força guerreira
cuidai de nós
agora e sempre
mesmo além da morte

Salve!
Magnólia Mater

Lobo das Estepes @ 2002

04 abril 2011

NOTA DE SUICÍDIO DE CESARE PAVESE
(No livro Dialoghi con Leucò)
Perdoo todos e a todos
peço perdão. Está bem?
Não façam demasiados mexericos.
Deixo e assino, assim
como uma estela
num buraco negro dos meus olhos
nesta página de um livro
que ficará como diálogo da tristeza
com o fim.

4.4.2011
João Tomaz Parreira




.

13 fevereiro 2011

Rosa Vermelha



O meu coração está nas tuas mãos
machucado, espremido, triturado,
como as pétalas delicadas
de uma rosa sangrenta.

Não me deixes aqui..
nas tuas mãos

Embriaga-me antes
devagarinho...
com suavidade ...
no perfume
na doçura
da tua boca

como as pétalas nectarinas
de uma rosa vermelha



@esmeralda  - 13/2/11

22 janeiro 2011

Versão actual reduzida do Aviso de Polónio


Nunca dês a tua língua com pensamentos
não entregues a tua voz
antes dos ouvidos
nunca fales depois de pensar
be thou familiar, but by no means vulgar
senão suspeitam que és
intelectual.

João Tomaz Parreira

20 janeiro 2011

mulheres

a todas as colegas da turma

pedro, depois arranjo um para ti (ou nós)


todas as tardes me assomo à janela
e oiço o balançar do vento nos pinhais.

há muito se silenciaram os sussuros das mulheres
quando deixavam o vale, rumando ao colo dos donos.

lembro-me quando descia às lezírias
para espiá-las: ruminando ao sol,
aguardando a cobrição do vento...

chegava-me a elas, na calma do poente.

deslizava-lhes a mão pelo dorso manso,
sentia-lhes o calo da vara, as ígneas marcas de posse.

ajoelhava-me junto aos ventres macios,
escutava o cadenciado pulsar das memórias.

cheirava-lhes o sexo quente e luzidio,
sorvia-lhes do úbere a água cristalina.

deitava-me com elas na terra quente
embalado pela lenta canção do estio.

essas mulheres, a fiar-me na palavra dos ciganos,
consta que foram todas mortas e vendidas.

disse-me um, muito velho, muito magro:

não se deve matar uma mulher espezinhando-a,
porque ela se multiplica e solta depois
muitas outras mulheres, sujas, pelo sexo.


terminou, depois, muito sério:

há-de, a mulher, ser morta com um pontapé
fulminante, no coração.


lobo das estepes @ julho de 2010


banda sonora » "Dark Night Of The Soul"
by The Kilimanjaro Darkjazz Ensemble

19 janeiro 2011

Pra que não digam que só eu é que escrevo asneiras

Ora porra!


Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.


Álvaro de Campos

De Oswaldo Montenegro-ouve-se na SICNotícias

"E que a força do medo que tenho, não me impeça de ver o que anseio, Que a morte de tudo o que acredito, não me tape os ouvidos e a boca: porque metade de mim é o que grito, mas a outra metade é silêncio."

Que a música que ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste.
 
Que a mulher que eu amo,
seja para sempre amada, mesmo que distante:
porque metade de mim é partida,
e a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo,
não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas como a única coisa que resta
a uma pessoa inundada de sentimento:
porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora,
se transforme na calma e na paz que eu mereço.

Que essa tensão que corre por dentro
seja um dia recompensada:
porque metade de mim é o que penso,
e a outra é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste,
Que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto, o doce sorriso
que me lembro ter dado na infância:
porque metade de mim é a lembrança do que foi,
a outra metade, eu não sei.

Não seja preciso mais que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito,
e que o teu silêncio me fale cada vez mais:
porque metade de mim é abrigo,
mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma reposta,
mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar:
porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer,
porque metade de mim é platéia,
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada,
porque METADE DE MIM É AMOR, E A OUTRA METADE, TAMBÉM.

Youtube » Metade - Oswaldo Montenegro

18 janeiro 2011

Promessa e Oração

Amor,


na primeira vez em que nos deitarmos juntos, vou aninhar-me recém-nascido entre as tuas Pernas, a cabeça pousada no teu Ventre morno. Embalado pelo teu pulsar vindo do fundo, vou amadurecer a Loucura e a Ternura, sem as quais não se pode Voar. O Cheiro do teu Sexo, ali tão perto e tão quente, vai entrar-me a jorros pelos Poros e alimentar-me os Músculos famintos de vigor.


Nutrido, vou levantar-me e levar-te nos Braços até junto do Pórtico de Fogo. Entraremos de Mãos dadas no Jardim dos Prazeres. Ganharemos Asas e sobrevoaremos os pomares férteis onde as Árvores dançam e perfumam de âmbar o Ar acabado de lavar por uma Chuva mansa. Poisaremos num prado onde cada Flor é a prova viva e delicada de que nada é impossível.


Faunos e Anjos olhar-nos-ão sem inveja nem crítica quando nos deitarmos, esplêndidos e luzidios, no manto de Pétalas brancas que o Tempo, entretanto parado, estendera para nos receber. Pôr-me-ei sobre ti, possante e meigo. Receber-me-ás, fecunda, com o Dorso generoso afagado pelo Vento.


Inauguraremos, assim, a época da Cobrição.


Lobo das Estepes @ Janeiro de 2011

15 janeiro 2011

Blu Mediterraneo


Nem Cila, alucinando
com uivos os ouvidos, nem Caríbdis
amedrotam
Outras tentações no rio Oceano
flutuam no azul
os cânticos que aveludam
o engano das sereias, os corpos
como mastros sob o sol
os jardins nos olhos das sereias
que começam a arder
de imaginação e sal.

15/1/2011
João Tomaz Parreira

25 dezembro 2010

24 dezembro 2010

NATAL ERA, NATAL É


Natal era…

Esperança. Fé

Inocência. Paz.

Perdão. Amor

Gratidão. Renascimento

Alegria….



Natal é…

Descrença. Materialismo

Egoísmo. Orgulho

Hipocrisia. Vaidade

Ingratidão. Tristeza

Solidão…


Natal era…

Um pinheiro com fitas vermelhas

Um presépio feito de musgo

Uma lareira a crepitar

Uma missa de galo no silêncio da meia-noite

Uma mesa cheia de sorrisos

E a família a acordar na manhã fria

Aconchegada na alegria da criançada

Com presentes desembrulhados

Em papéis coloridos e laços dourados

Atirados ao acaso.


Natal é…

Lojas apinhadas de pessoas apressadas

Crianças exigentes,

Chorando, gritando, amuando

Trânsito insuportável

Filas intermináveis para se embrulhar

Prendas compradas por obrigação

Pais natais barbudos e sisudos

Luzes brilhantes e ofuscantes

Gente rebuscando nos caixotes de lixo

Restos de ceias inacabadas, assim desprezadas

Enquanto lá fora…

O frio corta o corpo e a alma


Natal era, mas já não é

Porque deve sempre viver

Dentro de cada um de nós

Como uma chama quente

Que ilumina as almas perdidas.


Natal era, mas já não é

Porque nesta noite gélida

Estendo os meus braços

E abraço a humanidade

Num gesto de perdão


Natal era, mas já não é

Porque era, é, e deve ser

apenas AMOR!


@Esmeralda, 24 Dez 2010

22 dezembro 2010

Solidão

Solidão

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas


guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"


18 dezembro 2010

Tudo O Que Eu Hoje Queria

Tudo o que eu hoje queria era...

sentir esta chuva contigo,

sentir o cheiro da terra molhada,

ver o sol entre as gotas da chuva,

e o mar entre as dunas húmidas.


E tudo ver,

e tudo sentir,

mãos dadas a ti.


Sentir o cheiro da relva,

o cheiro do mar,

misturados com o teu cheiro.


Sentir a chuva no meu corpo,

misturada com o teu corpo.

Sentir na minha boca o gosto do mar,

misturado com o teu sabor.


Sentir a caricia do vento,

mais as caricias das tuas mãos.


E queria beijar-te,

beijar-te todo, de mãos entrelaçadas

e beijar-te molhada,


Molhada da chuva,

ou do mar

Molhada das lágrimas de alegria,

ou de suor,

ou de prazer.


E tudo o que hoje eu queria,

era...afinal,

ter-te aqui junto a mim.



@ Esmeralda

Outubro 2001


17 dezembro 2010

Dança das Flores

coisa em forma de poema,
resultado de um exercício colaborativo
ao jeito de cadáver esquisito heterodoxo.



De que forma andam as flores?
Andam de mão dada, como eu e a morte.

E onde estão elas agora?
Repousam no colo das crianças,
ronronando como gatinhos.

E o que cantam? E o que dizem?
Cantam como náufragos, ansiosas
por alcançar uma nuvem que as acolha.

Mas como pode um veleiro correr
por entre as nuvens sem naufragar?
O veleiro é a minha forma de ser
e as nuvens o elo de ligação incessável.

E se tudo te fosse dado, na palma da mão?
Eu sentiria a ondulação bravia do mar
e a serenidade terrestre, propagando-se pela vida
de uma forma nunca imaginada.

Mas se a morte me oferecesse, ao entardecer,
um relógio sem ponteiros, eu adormeceria
na floresta de corais floridos e medusas
enfeitiçadas por lendas jamais escritas.


Lobo das Estepes e Edera de Diana
© dezembro de 2010

10 dezembro 2010

Rima de Natal

É Natal, é Natal
já nasceu Jesus.
Coitadinho, pobrezinho,
vai morrer na cruz!

© 2010 Lobo das Estepes

Um poema Natalinho!

 
Natal é partilhar e dar um pouco de nós..
Natal é magia no sorriso de uma criança!
Natal é aquele cheirinho das filhós...
Natal é tempo de paz e de esperança!

08 dezembro 2010

pequena fábula

esta noite tive um pesadelo:

sentado no ramo duma árvore
que ardera, com uma maçã vermelha
na mão, esperava que chegasses.

perdoa-me, mas cheguei a duvidar
que viesses, e chorei um pranto
mudo, que desceu em catadupa
todos os degraus, que fumegavam.

formaram um rio, os miríades de lágrimas
argênteas, cujo leito era o caminho
que levava ao esquecimento de tudo
o que luzia e jaz agora no fundo do mar.

mas eis que chegaste, esvoaçando.

agitaste os cabelos, os ossos,
os tendões incandescentes.

esticaste as pernas, finas,
frias, com escamas de vento.

ergueste o bico de oiro, a noite
parou pra te ouvir cantar.

levei a maçã vermelha à boca,
que beijei, como se te trincasse.
desci, com três pulos, a escarpa
de prata ardente, pra te receber.

estendi a mão, pra te cariciar
o dorso de pétalas de acácia,
mas quando te toquei não estavas lá.
devias ser a sombra de um gato.

eram cinco para a meia noite, quando adormeci.

mal acordei, com marcas de garras gravadas
no coração, mordi fundo a maçã vermelha
que me saíra, quente, do ventre, e escrevi
este poema maligno que, a ti, dedico.

lobo das estepes @ junho de 2010

03 dezembro 2010

salamandra de fogo

quando ao crepúsculo a salamandra
de fogo sai do ninho deixa atrás de si
um rastro helicoidal de palavras
que arfam quando lidas de perto

tu a labareda de línguas
equinas e macias
que crepitam nos meus
dias internos e opacos

eu a salamandra iridescente
que te esgaravata o dorso
e sonha cardos
à sombra da lareira

enquanto ardo congemino
apocalípticas madrugadas sentado
no alto dos teus joelhos

perscruto a ravina
carmesim que me olha
imensa e me comprime
as carótidas até à asfixia

é então que morro
e renasço, másculo, luzidio
sob a campânula de veludo húmido
imarcescível que é o teu ventre

desdobro os braços, abro a boca
arfo, e num cântico profundo inundo-te
de seiva translúcida desde as raízes
dos pés às folhas dos cabelos

sou o fruto helicoidal do teu fogo
brando, endógeno, que queima
quando tocado por dentro


Lobo das Estepes @ 2009