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07 abril 2011

Pesadelo

Desespero, de Bruno Moreira (retirado daqui)



Regresso, vezes sem conta, ao inferno onde durante muito tempo fui. Não passei de um fugitivo.
O calor dos dias intermináveis, a vegetação a agredir-me o corpo encharcado de medo e o eco dos corpos inertes perdidos para sempre naquele labirinto, fragmentos de histórias inacabadas povoam-me e não me libertam.
Acordo, sentado na cama, com uma angústia que me toma.
Lá fora chove…
Arrepio-me de frio e, depressa, aconchego-me nos cobertores, aninho-me junto ao teu corpo quente. Concentro-me na tua respiração para apaziguar esta tormenta que me invadiu e me impede de dormir. Pouco a pouco o tumulto dissipa-se.
Ao longe troveja, percebo-o pelo clarão que estilhaça na janela grande do nosso quarto. Porém, apesar deste pesadelo, anseio, mais do que ontem, que o amanhecer tarde em chegar.
O dia rompe a linha do horizonte, denso, cinzento como as minhas olheiras. Mal dormi. Chegou o momento da partida e sou mais um que sobe as escadas do navio, rumo ao desconhecido continente africano. Até já? Até sempre? Não sei, é cedo demais para o saber.

[O meu 1.º exercício de EC - Transformar um sonho numa história]

12 janeiro 2011

O incêndio na escola do meu coração: memórias soltas da minha infância

Lembro-me de adorar ir à escola e de transformar o início de cada ano novo escolar numa azáfama mágica, como a dos duendes em vésperas da entrega dos presentes de Natal. A ansiedade de comprar os livros novos e o desejo insaciável de ter uma mochila, um estojo, uma borracha ou uma simples caneta nova, para levar comigo no primeiro dia de aulas, faziam o meu coração mudar de cor, tal como acontecia com as folhas das árvores, naquela mudança de estação.
Recordo-me de passar muito tempo na escola, onde a minha mãe trabalhava – a ler, a desenhar, a colorir, a recortar, a colar – e sobretudo a ouvir as conversas daquelas pessoas, que já não tinham a minha idade. Pareciam  sempre  tão apressadas e nervosas. Apesar de tudo isto, não me lembro do meu primeiro dia de aulas e confesso que as minhas memórias de infância são como um dia de nevoeiro no país do chá e das bolas de neve.  A escola sempre foi a minha segunda casa e já não me lembro do primeiro dia que lá entrei, pois devia ser um bebé de colo.
A minha mãe conta que em no ano em que entrei para o pré-escolar, fiz uma birra enorme e fartei-me de chorar, porque não queria lá ficar. Já não me lembro disso, mas recordo-me bem das cenouras que a minha amiga dinamarquesa comia e da caixinha de areia onde brincávamos horas infinitas. Ahh…também me lembro bem de adorar brincar!!! O meu pai repete vezes sem conta que quando me chamava para regressar a casa, depois de um longo dia de brincadeira, eu dizia que não estava cansada, porque não tinha brincado nada. Na verdade, lembro-me de ser criança, mas já não me lembro da criança que fui. As fotografias são muitas...e isso ajuda a enriquecer as recordações. Tenho saudades desse tempo, que já não volta, mas sinto-me feliz porque aconteceu!
Recordo bem o dia fatídico em que cheguei à minha antiga escola primária – a escola do meu coração –  e vi as labaredas de fogo a consumirem o edifício como se fosse uma caixa de papel. Essas malditas labaredas perseguiam-me como se fogem dragões saídos de um filme de ficção científica. Eu estava triste e cansada de correr de um lado para o outro para as tentar afastar da escola. Os meus colegas de turma  gritavam muito e as lágrimas escorriam-lhes pelo rosto  como cascatas limpídas e tranparentes. Os bombeiros lutavam contra aqueles fantasmas vermelhos, com os jactos de água das suas mangueiras compridas e velozes, que me faziam lembrar serpentes encantadas.  De pijama e roupão,  os pais das crianças agradeciam o facto do incêndio ter sido de noite e de não estar lá ninguém dentro. Quando lá entrei, horas mais tarde, depois dos bombeiros terem apagado o fogo, estava tudo em cinzas. O cenário era de destruição. Estava tudo negro e desconfigurado e eu já não reconhecia a minha sala, nem a minha cadeira, nem os meus cadernos novos, cheios de belas composições escritas à mão.  Comecei a ouvir a sirene dos bombeiros já longe, mas quando dei conta, acordei e reparei que era o despertador, que me libertava deste pesadelo recorrente.


Resolvi escrever acerca deste meu pesadelo de criança, pois pareceu-me mais interessante e do que aquele que  escrevi na aula, com o qual não fiquei satisfeita!

Feliz ano novo de 2011 para todos!!!!!!!!!!!

11 janeiro 2011

I N F E R N O

ou...

O que sentes quando a noite cai e o sono não vem?



Neste espaço exíguo, movo-me com a dificuldade de um rato exilado no mais recôndito e imundo emaranhado de túneis. Estes canais — com cheiro a putrefacção, manchados de vómito e cravejados de insectos — não são subterrâneos, escavados por animais que vivem à noite. São passadiços metálicos, cujas paredes são contentores construídos pelo homem com a função única de albergarem o que a sociedade quer o mais longe possível dos seus lares e, se possível, esquecer. O calor intenso, que torna o cheiro insuportável, penetra a jorros pelas fendas estreitas e viscosas que me permitem ter uma parca noção do espaço circundante: lixo — toneladas de desperdício humano.

Eis o meu cárcere: um gigantesco labirinto de contentores maciços que escondem a porcaria que ninguém quer. Condenado a ruminar em solidão os meus pensamentos abjectos, sinto-me, por vezes, tentado a empurrar um contentor e evadir-me. Sei que teria forças para movê-lo, mas... terei a coragem — ou mesmo a vontade — para regressar à torrente de asséptica humanidade?

Este lugar, por muito repugnante que seja, conhece-me, aceita-me. Nas suas tortuosas entranhas, encontro sempre onde me esconder, quando ouço algum dos camiões aproximar-se para se livrar da carga sórdida; há múltiplos recantos ao abrigo do sol escaldante do meio-dia, ou do vento gélido que sopra nas noites invernosas. Sei onde passa um rego de água escura onde, às vezes, para além de algum bicho boiando na superfície gordurosa, encontro pequenas bolas de sabão e espuma perfumada que me fazem lembrar as minhas brincadeiras de infância, nos regatos ladeados de ervas, funcho e margaridas, junto do grande tanque de pedra, da aldeia, onde a minha mãe lavava a roupa com sabão Clarim.

Sei, em cada altura do ano, onde encontrar todo o tipo de répteis rechonchudos e as mais variadas aglomerações de insectos: dos crocantes ao agridoces, dos completamente negros aos transparentes e delicados como filigrana. Conheço de cor os locais com maior probabilidade de encontrar uma ave acabada de tombar — por doença, idade, ou tédio. Não raramente, do cimo dos três metros de altura dos contentores, caem objectos com algum interesse lúdico, ou perfumados com algum cheiro sintético que eu já havia esquecido.

under construction

A CASA: ou o convite ao interior de um pesadelo


Quero acordar e não consigo. Entro em pânico e olho à minha volta. Desnorteadamente.
Ao longe, vejo uma CASA. Caminho na sua direcção. Ou antes, tento caminhar, porque as pernas pesam como chumbo. Mas continuo a andar. Teimosamente. Penosamente.

A CASA está agora mais perto. Assustadoramente perto. E é enorme. Parece uma mansão vitoriana saída de um filme qualquer do Alfred Hitchcock. As paredes negras e frias escondem segredos e as janelas, arqueadas e arregaladas como olhos gigantes causam-me arrepios. As árvores nuas sussurram…ou será que suspiram? Quero fugir. Quero sair dali. Mas a CASA chama-me e os seus portões de ferro forjado abrem-se como um convite.

Hesito. Olho para trás e vejo apenas a escuridão. Apenas A CASA com os seus portões escancarados, à espera de mim. Lentamente, com o medo a escorregar pelas pernas, entro na CASA que me engole.

Vejo-me agora num salão de mármore onde crepita uma lareira. Sinto o calor derreter e o medo invadir o meu coração gelado. Sento-me no cadeirão de veludo branco que surgiu do nada, como um gesto de alívio. Já não quero acordar. Quero ficar ali para sempre. Aninhada no cadeirão. Vendo as chamas a estalarem e a deixar o calor envolver-me como um abraço terno.


Oiço um som. Uma gargalhada que emerge como uma bolha de ar. Viro a cabeça num gesto brusco em direcção ao som. Sigo a gargalhada com os olhos e encontro, enroscada num canto uma criança. Sem sexo nem idade, apenas uma criança que ri. Sorrio. Levanto-me e caminho para ela estendendo os braços. Mas ela já não está ali. Corre agora por um corredor sem fim, cheio de portas. E eu corro atrás dela. Chamo por ela. Pergunto-lhe: onde vais? Mas oiço apenas as suas gargalhadas como resposta e continuo a correr.


Corro agora sem parar e reparo com horror nas cobras que infestam o caminho. Rastejando e enrolando-se nos meus pés. Tento sacudi-las com pontapés furiosos, mas elas prendem-me os pés com os seus corpos repelentes. Escorregadios. Desesperada continuo a correr.
A criança perde-se ao longe e confunde-se agora com a CASA. Desvanecem-se ambas num horizonte violeta. Tento ainda alcança-las num esforço derradeiro, mas já não vejo nada.


Tudo está agora silencioso.


Só oiço o palpitar do meu coração. E o despertador que insiste em soar teimosamente nos meus ouvidos.

06 janeiro 2011

Princípio do princípio do fim

Só vejo as prateleira brancas, vazias. O vidro não me deixa ver mais nada. Vou sair daqui, tenho de sair. Grito. O grito não se faz ouvir. Ouço barulho. Estão a despejar livros, uns sobre os outros. Cheira a petróleo. O branco das prateleiras enche-se cores: amarelos, laranjas, vermelhos. Cheira a queimado. Começo a ver as folhas de papel transformarem-se em faúlhas e há risadas de vozes fortes, metálicas e ríspidas. Tudo negro. Sufoco. Caiu uma enciclopédia na fogueira acima de mim. Grito. O grito não se faz ouvir. Grito mais alto. Som nenhum.
O espírito do poeta visita-me:
" Menina, lembre-se do que eu lhe escrevi!"
Tremi com o barulho de mais livros lançados à fogueira.
Lembrei-me.
"Onde se queimam livros, mais tarde queimar-se-ão pessoas".
                                                                  Berlin, Platz der Oper, 10/5/1933