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04 abril 2011

NOTA DE SUICÍDIO DE CESARE PAVESE
(No livro Dialoghi con Leucò)
Perdoo todos e a todos
peço perdão. Está bem?
Não façam demasiados mexericos.
Deixo e assino, assim
como uma estela
num buraco negro dos meus olhos
nesta página de um livro
que ficará como diálogo da tristeza
com o fim.

4.4.2011
João Tomaz Parreira




.

22 janeiro 2011

Versão actual reduzida do Aviso de Polónio


Nunca dês a tua língua com pensamentos
não entregues a tua voz
antes dos ouvidos
nunca fales depois de pensar
be thou familiar, but by no means vulgar
senão suspeitam que és
intelectual.

João Tomaz Parreira

15 janeiro 2011

Blu Mediterraneo


Nem Cila, alucinando
com uivos os ouvidos, nem Caríbdis
amedrotam
Outras tentações no rio Oceano
flutuam no azul
os cânticos que aveludam
o engano das sereias, os corpos
como mastros sob o sol
os jardins nos olhos das sereias
que começam a arder
de imaginação e sal.

15/1/2011
João Tomaz Parreira

05 janeiro 2011

Um epigrama do Salmo 23 de Hemingway


A poesia de Ernest Hemingway foi recomendada por Ezra Pound. “Ele escreve muito bons versos.” Tem uma linguagem precisa e selecciona com cuidado as suas impressões visuais, resumia o autor de Os Cantos, reservando para o lado do imagismo as imagens de alguns dos poemas de Hemingway.
No Neothomist poem, EH relaciona a partir do título a temática religiosa com o naturalismo, parece inspirar-se na fé de Tomás de Aquino, sobretudo, mais do que na filosofia de Aristóteles. A bem dizer, é uma paráfrase poiética do Salmo 23 perfeitamente cristã, estruturada no conceito da fé sobre o que se não pode ver ainda.
Neste poema de dez versos (ten-line poem), que o autor acabou por reduzir a um epigrama, produziu um eco do Salmo 23, uma paráfrase sintética que resume toda a omnipotência e omnipresença do pastor. Inicialmente os dez versos eram uma imitação do Salmo. Desconexa na sua estrutura poética, no seu enunciado salmódico, colocando lugares e adereços no poema que não correspondem nem canónica nem datadamente ao conteúdo do poema hebraico de David. Da redução do poema a duas linhas apenas, não se encontra nenhuma explicação. Apenas gravura do poema dactilografado por inteiro e depois já o epigrama publicado em The Exile, uma revista literária editada em 1927 por Ezra Pound.
Todavia, o resultado, o epigrama não exibe mordacidade nenhuma. Nem se vislumbra resquícios de crítica.
Contudo, anotações marginais ao poema vêm esclarecer que o que parece ser uma referência ao Tomismo, pode bem não ser. Ainda que lateralmente Hemingway tenha desejado sublinhar alguma coisa a ver com a religião, ao que parece.
A verdade é que o autor de “Por quem os sinos dobram”quer significar com este título a conversão à Igreja de alguns dos seus amigos como Jean Cocteau e, sobretudo, Thomas Sterns Eliot (T.S.Eliot), de onde o “Thom” pode bem ser a sugestão.

NEOTHOMIST POEM
The Lord is my shepherd
I shall not want his for long
he maketh me to lie down in green pastures
and there are no green pastures
he leadeth me beside still waters
and still waters run deep
the wind blows and the bark of the trees is wet from the rain
the leaves fall and the trees are bare in the wind
leaves float on the still waters
there are wet dead leaves in the basin of the fountain

POEMA NEO-TOMISTA
O Senhor é o meu pastor, nada
me faltará por muito tempo
ele me faz repousar em pastos verdejantes
e não há pastos verdes
guia-me mansamente a águas tranquilas
e ainda correm águas profundas
….
o vento sopra e a casca das árvores está molhada da chuva
as folhas caem e as árvores estão nuas ao vento
folhas flutuam sobre as águas calmas
há folhas mortas molhadas na bacia da fonte

POEMA NEO-TOMISTA
O Senhor é o meu pastor, nada
me faltará por muito tempo.

Tradução de poema e Texto de João Tomaz Parreira

18 dezembro 2010

Haicai, escrito em Miami

A lua aveludou
o ceu: ah prepara um leito
para a minha noite.

Joao Tomaz Parreira

(Miami Beach, 17-12-2010)

27 novembro 2010

Amor e Fuga em Auschwitz

Um amor numa esquina furtiva
de arame farpado, um delírio
que liga o amor apenas trocado
entre as mãos e os olhos
no rumo da noite, no bosque do céu
ramos de estrelas
cobrirão nosso rasto.


11/8/2010


João Tomaz Parreira

10 novembro 2010

Os Escritores


Peça em dois quadros num Acto.

Personagens : Arlen, um americano, contista conhecido nos meios da revista New Yorker, cerca de 40 anos. Specter, perto dos 60. Crítico literário avulso.

Uma mesa de café com dois bules, um com café outro com leite, duas chávenas. Uma espécie de Starbucks de bairro da parte baixa da cidade, meia dúzia de frequentadores, já conhecidos. Os últimos. Algumas cadeiras já arrumadas, umas sobre as outras, como uma torre de Babel. Duas horas da manhã.


Arlen – Bela noite para dar um tiro no ouvido!(Olhou para o seu interlocutor, movimentou a mão direita para os lados, sobre o tampo da mesa e, depois, levou-a à tempora direita, e com dois dedos em ângulo)- Puff!Pausa.- A personagem parece estar a pedi-lo.

Specter ( olha para Arlen e franze os sobrolhos) – Depois dos diálogos que já lhes ouvi, Arlen, não sei se daria certo.Pausa.-É que há correspondência de estados e de sentimentos entre os diálogos das tuas personagens, Mikhail Baktin não iria gostar.Risos na mesa.

Arlen – Polifonia nos discursos que nem sempre são contradições. Afinal o dialogismo para Baktin vai muito mais além… -Pausa

Specter ( interrompendo)- …de textos dentro do texto. Eu sei, mesmo assim, para além do entrecruzar de várias vozes, as tuas personagens parece que estão de acordo.

Arlen – Perante os factos criados no enredo, gostava de poder dizer isso. O tema, contudo, não me parece propício. Às dialogias .

Specter – Óbvio, tinhas que tentar refazer um ambiente pós-traumático às tuas personagens, sendo que cada uma teria a sua maneira de verbalizar o conflito.

Arlen- A recorrente história próxima da América com a Guerra do Vietname, não me deixou outro recurso.

Specter ( emenda-o, com um gesto) – Não, outra fonte. Os teus trabalhos sobre isso, sempre foram muito históricos. É uma fonte a que vais beber.Pausa-Li Chomski, sabes.

Arlen- O Noam fez a crítica da guerra pelo lado do Poder Americano.(Levanta-se, sai fora da luz, como se fosse ao balcão e vem com uma chávena)-Está vazia. (Agarra no bule com leite e verte na chávena). Não quero mais café forte, hoje.

Saem ambos, depois de Arlen beber o café e deixar 3 dólares sobre a mesa.


Dia seguinte. Manhã. Esquina de uma Rua com a 6ª, na Village, com vapor a sair de uma grelha no chão.


Specter (com ar lavado, cabelo comprido humedecido) – Estive a reler um poema que escreveste há uns anos para o Departamento de Poesia da New Yorker. Lembras-te?

Arlen ( fazendo um esforço, fala vagamente) – É aquele do cigarro abortado antes da última cinza?

Specter (diz que sim com a cabeça) – Esse, no qual fazes um esforço para contradizeres tudo o que Bakhtin ensinou sobre a presença de outros textos dentro do texto…

Arlen ( interrompe-o de chofre) – Dialogias, não. Logo de manhã. Esse poema é um único texto e sou eu mesmo, do princípio ao fim.

Specter (com ar desconfiado, tira do bolso uma folha de papel que parece ser de revista, pára, lê um excerto com ar dramático). – Quando a noite chega e meus olhos / são uma sala vazia, quando a noite chega / e olho meus livros, os meus utensílios /com palavras na penumbra, é a hora da luz / iluminar com a sua água sobre a mesa...

Arlen ( puxando-lhe o braço, interrompe-o) – Esse poema podia hoje aplicá-lo à minha personagem…anda às voltas com a noite.

Specter ( com ironia) – Cá está, outro texto, não apenas uma personagem e um diálogo, mas duas pelo menos: a noite e tu.

Arlen (vitorioso) – Aí está, digo eu agora. A noite é pura e simplesmente antagonista.Ela não responde nada, é alheia ao sujeito poético desse poema. (Tira-lhe da mão a folha de revista.) Deixa-me ler. “Quando chega a noite / estou cercado de perguntas, algumas / respondo, outras cingem-me os ombros “ (Lê em voz bem audível, de uma forma neutral)

Specter ( retoma o passo e arrasta o amigo) – Se incluíres esse poema no conto, em forma de prosa, ou seja como for, terás o caminho aberto para o que disseste ontem à noite.

Arlen ( pára, pensa um pouco, abre ligeiramente os braços) – Matar a personagem com um tiro no ouvido? ( leva a mão direita à têmpora e abre em ângulo dois dedos)

Specter (sibilinamente) – Puff!


(c) João Tomaz Parreira