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12 abril 2011

a inevitabilidade da tragédia



Quando se ajoelhou no chão para beijar uma aranha morta, o anjo que vive escondido na sombra do remorso segredou-lhe ao ouvido: «Essa paixão pelas coisas flamejantes é um animal revoltado contra a inevitabilidade da tragédia».

A mulher com olhos de peixe respondeu-lhe que ela própria era uma cidade em chamas. Saiu à rua; sentou-se a ouvir a alegria dos pássaros esmorecer.

Depois do vento lhe soprar as escamas do rosto e frio da noite lhe beijar os pés, enforcou-se no umbral da porta porque lhe faltaram os fósforos para incendiar a misericórdia do tempo.

14 março 2011

As Rosas Também Choram

A cancela estava aberta. Entrou no jardim com o passo sobressaltado. Apanhou uma rosa esquecida do chão e cheirou-a com um ar distraído. Não olhou a beleza das pétalas que se desfaziam. Nem escutou o melro que espreitava por entre os ramos do pinheiro, com olhos amarelos. Simplesmente levou a rosa ao nariz num gesto automático. Como quem cheira um perfume ou uma peça de fruta no supermercado.

Suspirou. Deitou fora a flor com um trejeito cansado e sentou-se… no chão. Encostou-se ao muro de pedra que corria à beira da cancela. Abraçou os joelhos e poisou o rosto nas mãos entrelaçadas. Com os nós dos dedos brancos, apertados como cordas. Rústicas, grossas, inquebráveis. E de olhos na estrada deserta, preparou-se para esperar.

Por ele…

Ele que dissera que vinha e não vinha. Ele que lhe enchia o coração e aquecia a alma. Ele que prometia e se esquecia. Ele que estava sempre presente em cada pensamento e tão ausente em cada momento. Ele…

E deixou cair uma lágrima nas pétalas já murchas da rosa desfolhada aos seus pés.

Sim, porque as rosas também choram!



@esmeralda  12 Mar 2011

24 fevereiro 2011

microCONTO

No centro da pista, o DJ cego pressentiu uma mulher serpenteando ao ritmo hipnótico da White Party. Abrindo as asas, sobrevoou a multidão e iniciou um voo espiralado ao encontro do chamamento magnético. Chegado junto dela, leu-lhe o nome, gravado no anel: Íris? Eu chamo-me Marco. Quando os lábios de ambos se uniram e o amplexo cruzou o ar, todos os presentes na festa despiram as vestes brancas e fizeram luzir os corpos multicolores.

Lobo das Estepes @ 24.fev.2011


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