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21 fevereiro 2011

Sombras… nada mais!

Era o paraíso! Visto do lado do mar o panorama é maravilhoso: os rochedos em cutelo, fragas vivas, em alcantilados, cortados a pique, até às minúsculas praias, rendilhadas de enseadas. (…) Por toda a parte arbustos, nascidos no vento, fazem-se árvores, aproveitando o orvalho e a geada que ficou da noite. Esconderam-se e erraram nas suas sombras, como noutros tempos os ermitãs e pensadores, homens acossados e animais feridos. Entre as pedras cobertas por musgos e habitando as celas estreitas do Conventinho da Arrábida, santuário alcandorado no meio da encosta virada a sul, (…). Mas, nas noites de temporal, com o vento inclemente e duro, com a chuva impiedosa a entrar pelas árvores, pelos musgos e encharcando a terra, os medos acoitam-se nas fragas. São as noites dos lobos, dos carneiros chacinados e dos foragidos. Em nenhum lugar a noite é mais noite e o negrume mais negro. Quando a madrugada chega e se não há nevoeiro, o sol rompe as trevas e com os seus raios rasantes vai amolecendo a desgraça. Por fim, o mar fica tranquilo.

João Sena, autor do livro Sombras… nada mais!


vi este excerto no facebook (casa das letras, acho), como apresentação do livro mencionado. guardei porque me parece um exemplo excelente de: descroção, atmosfera, "unidade de efeito". por isso o partilho aqui.

28 dezembro 2010

Descrição do meu refúgio!


As paredes pinceladas de cor-de-rosa reflectem nos cortinados e nas almofadas arroxeadas. Quando fecho a porta, sinto o aroma inconfundível da privacidade, que se mistura com o cheiro do incenso de mel e da aconchegante melodia da chuva.  
 Sou transportada para uma terra mágica, onde os livros têm asas, as caixas de música parecem bolos de aniversário e as fotografias  sabem falar. Os anjos vão voando pelas  quatro estações do ano. O mais teimoso insiste em estar sentado na montanha livresca mais alta, para ter os seus pensamentos mais próximos das nuvens. Neste lugar idílico e mágico, há neve e amores-perfeitos, eternamente primaveris; e há ainda uma rena, que não aprendeu a voar, mas que observa atentamente a bola de neve do país do chá e dos castelos. O marco do correio fica perto das cúpulas Russas e os meus sonhos estão em cada um destes objectos.  A minha rainha de rosas tem o seu altar em frente à minha cama. O arlequim e a princesa estão atentos às mudanças de humor da bailarina e da fada verde, porque afinal quer esteja só ou acompanhada, no meu refúgio tudo tem tanto significado, que perco a noção do tempo, contemplando cada nuvem sonhadora que me fornece energia e muita inspiração...
Espero que gostem...foi escrito e reescrito várias vezes e ficou assim!!!!!
Venham os comentários para quem os quiser fazer...

Boas festas,
Ana


18 dezembro 2010

O Refúgio


Quando me canso do mundo abro as portas da minha imaginação e entro no meu quarto secreto.


Deixo-me cair no velho sofá com cheiro a cabedal e enrosco-me nas almofadas coloridas espalhadas à toa. Suspiro. O meu olhar pousa nas sombras do deserto projectadas pelo pequeno candeeiro árabe.


Fecho então os olhos e sinto… os meus pés descalços enterrarem-se no tapete usado, mas ainda macio. Penso no pulsar dos mercados orientais. Os seus cheiros enrolam-se na nuvem do incenso que queima, lentamente, na arca embutida em madrepérola e recordações.


Da janela semi-aberta a brisa primaveril agita levemente as cortinas transparentes (e a minha alma). Estremeço. No gira-discos fora de moda geme o saxofone. Envolvo-me de melancolia.


Estendo a mão e toco nos livros esquecidos no chão. Tanto para dizer, para escrever e contar em pequenas histórias recortadas nos pedaços de mim. Tantas coisas penduradas no tecto e nas paredes como carimbos de passaporte das terras por onde deambulei.


O saxofone continua a gemer. Agora mais baixinho, mais perto do coração. Suspiro outra vez, e deixo-me levar, devagarinho, para a Terra de Ninguém.


Porque é ali, que me sinto em casa.

17 dezembro 2010

A Toca

“Tu tens quatro avós?”- pergunta a criançada que entra na minha toca.
Já tive, mas as fotografias estão noutro lado. Aqui acompanham-me Unamuno, Eça, Churchill e Karajan. Aqui escrevo, penso, rio-me e trabalho. Às vezes choro.
O candeeiro de latão, quase afogado em papeladas, esforça-se por dar luz a mais algumas páginas, algumas interessantes. Muitas secas e inúteis, que irão parar a  qualquer caixote de lixo ou ao chão de uma escola.
A agenda deve andar por aí, meia perdida, se calhar no meio do amontoado de pares de óculos.
Da minha toca vê-se o meu mundo. Livros, sinfonias, as viagens que fiz e as que gostaria de fazer. Rostos de memórias doces que me fazem falta. As máquinas fotográficas que registaram  momentos desta casa, a caneta Parker oferecida pelo Avô Neves para melhorar a letra, os quadros do Pais.
A mug com lápis marca a presença de “A Room with a view”, um íman avisa e dá uma desculpa para tanta coisa  acumulada “ A organização é metade da vida; eu vivo na outra metade” pode lá ler-se.
As cortinas às riscas escondem a paisagem de que não gosto.
A manta escocesa agasalha e envolve tudo no seu xadrex.

Rei, capitão, soldado, ladrão,
peão, rainha, menina!