“Tu tens quatro avós?”- pergunta a criançada que entra na minha toca.
Já tive, mas as fotografias estão noutro lado. Aqui acompanham-me Unamuno, Eça, Churchill e Karajan. Aqui escrevo, penso, rio-me e trabalho. Às vezes choro.
O candeeiro de latão, quase afogado em papeladas, esforça-se por dar luz a mais algumas páginas, algumas interessantes. Muitas secas e inúteis, que irão parar a qualquer caixote de lixo ou ao chão de uma escola.
A agenda deve andar por aí, meia perdida, se calhar no meio do amontoado de pares de óculos.
Da minha toca vê-se o meu mundo. Livros, sinfonias, as viagens que fiz e as que gostaria de fazer. Rostos de memórias doces que me fazem falta. As máquinas fotográficas que registaram momentos desta casa, a caneta Parker oferecida pelo Avô Neves para melhorar a letra, os quadros do Pais.
A mug com lápis marca a presença de “A Room with a view”, um íman avisa e dá uma desculpa para tanta coisa acumulada “ A organização é metade da vida; eu vivo na outra metade” pode lá ler-se.
As cortinas às riscas escondem a paisagem de que não gosto.
A manta escocesa agasalha e envolve tudo no seu xadrex.
Rei, capitão, soldado, ladrão,
peão, rainha, menina!