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04 novembro 2010

ex.2 » contar vs mostrar


Eva, uma enérgica ruiva de 19 anos, empregada de Verão na pastelaria Doce Gosto, chegou, como é hábito, dez minutos antes da hora de abertura com um ramo de margaridas recém-colhidas do seu próprio jardim.

Entrou na cozinha, encheu de água a jarra de vidro liso e transparente onde colocou o emaranhado branco e amarelo, dando-lhe um arranjo rápido, que depois pousou numa ponta do balcão. Levou as mãos ao rosto, os olhos fechados, e ficou-se ali, quieta, no escuro, fruindo o adocicado cheiro a verde que lhe ficara na pele.

Apressou-se a abrir as persianas para dar a merecida luz à composição florida, aproveitando para passear o olhar por todo o espaço verificando que tudo estava limpo e no seu lugar: cadeiras, mesas, guardanapos, menus.

Enquanto não começava a azáfama do pequeno-almoço, ligou a máquina do café e folheou, curiosa, o jornal local para ter tema de conversa, animada e actual, para os fregueses da casa. Ligou o rádio. Cheryl Crow cantarolava alegremente "a change would do you good".

Eva fixou o olhar na rua luminosa, cheia de gente correndo, correndo apressada, correndo atrasada, correndo cansada. Amargou-lhe nos lábios a estrofe duma canção. Ouvira-a na noite anterior, repetindo-a até que um beijo de Hipnos a silenciou:


"some day
i'll fly away
from this world
"



março de 2010


banda sonora » Sheryl Crow - "A Change Would Do You Good"

25 outubro 2010

Exercício 2: Contar vs. Mostrar!

 Olá a todos,

Confesso que tive dificuldades em resolver este exercício na aula, talvez devido à  frase não ser minha, mas sobretudo porque  no momento não consegui identificar características mais específicas e objectivas para descrever o "ataque de pânico". Estava colada à frase que tinha escrito, tendo-me limitado a descrever um estado ansioso ou de angústia. Por outro lado, também acho que para fazer descrições convincentes temos de ter conhecimento da causa/estado/situação; vivências ou muita capacidades de interiorização/ absorção do que nos rodeia. Em certos momentos da minha vida, por vezes, acho que tenho essa capacidade, mas ao realizar este exercício, concluí que estou longe de o que conseguir...mas tudo se treina e tudo se aprende...ou quase tudo...mas escrever também é um acto solitário e isolado e na aula não sinto essa privacidade...

Esta é  a minha nova versão do texto que escrevi na aula, completamente reformulada e melhorada!!!! Aqui vai:

Relembro a frase ( "O Gustavo está a ter um ataque de pânico.")

 Já berrei, esperneei e transformei o meu quarto num enorme lago de lágrimas cristalinas. Atirei a jarra para o chão, bati com as portas e fechei  os armários para não me ver ao espelho. Também já fui para dentro do armário. Agora deambulo pela casa, sinto as mãos suadas e o rosto a estremecer, grito sem me fazer ouvir. Há um eclipse de tristeza na minha alma e não consigo respirar. As raízes do velho carvalho do meu jardim parecem agarrar-me o pescoço como mãos pesadas para me sufocar e, ao mesmo tempo libertar deste sofrimento atroz. Estou perdida, desorientada, desiludida e amargurada. As lágrimas escorrem-me sem esforço e não consigo parar de pensar no que ele me fez.Como é que ele foi capaz de me trair? E  com a minha melhor amiga? Será que sou eu que me sufoco a mim mesma ou fiquei com a marca da traição gravada para sempre? Preciso de desabafar, de me tratar! Está decidido, vou consultar uma psicóloga, não aguento mais! Qualquer dia  ainda vou parar ao hospital! E tudo por causa daquele parvalhão, que não vale um tostão!

Sei que ainda posso melhorar  e por isso agradeço as vossas sugestões...venham elas...

Antes de terminar, quero acrescentar que apesar de ainda nem ter passado semana da criação do nosso blog,  já sinto os benefícios desta troca de ideias, que tem sido tão profícua e intensa... Agradeço aos meus  colegas "bloggers" e espero que esta simples ideia tão comum de criar um blog, dê frutos num futuro tão próximo quanto risonho para todos.

Boas correcções e boas leituras...

Ana

24 outubro 2010

ex.2 » contar vs mostrar


Não me apetece voltar ao hospital. Estou farta, farta! É suposto eu afinal lutar porquê? Os meus dois filhos já os criei, com sacrifício e esmero; eles próprios são hoje bons pais, como eu fui. Divorciada, devo agora manter-me atraente para quem? Para os solteirões do clube de leitura? Para agradar aos meus filhos? Receber os netos? Não!

Já fiz tudo aquilo a que uma mulher de origens modestas pode aspirar. Visitei até a Torre Eiffel; levou-me o Alberto, quando ainda éramos felizes, e beijámo-nos lá em cima — o vento a soprar-me nos cabelos e aqueles braços a apertarem-me contra ele, com desejo, apaixonado. Fiz também o curso de modelação em barro com que sempre sonhei; ainda guardo todas as peças, belas, menos o cinzeiro que lhe ofereci — cabrão! —; não cheguei a participar em nenhuma exposição, mas nunca tive muito tempo livre, nem o talento...

Agora, quero apenas olhar os gatos, da minha janela; sossegada, enquanto bebo o meu chá de jasmim; longe de tratamentos que só me causam dores e angústia, que fazem de mim mais uma preocupação, um estorvo. Continuar com esta tortura para quê? Para ganhar mais uns meses? Uns anos? Não, estou farta!

O que mais posso agora esperar, que não dores e desilusões? Não acredito num futuro onde seja feliz; estando o meu corpo deformado, incompleto.

Não; já tive a minha quota-parte de felicidade.... Até já fui a Paris, cinco dias; fiz amor apaixonadamente, todas as noites; comi croissants; passeei no meu vestido novo — ofereceu-mo ele, uma semana antes de partirmos — apreciando os pintores, ali, ao vivo, na minha frente, colorindo as avenidas...


exercício proposto por uma colega:
"mostrar que a Inês tem canco da mama"


novembro de 2010