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14 abril 2011

Romeu



Ou o Outro Lado da Vida


Sempre que chegava da universidade atirava com os livros para cima da mesa. Olhava para o relógio. Mudava de roupa apressadamente. Pegava na mochila e nas chaves do carro. Batia com a porta. Descia as escadas a três e conduzia até ao outro lado da cidade.
Quase sempre fazia um pequeno desvio e parava no MacDonalds. Nunca olhava para o menu folclórico e apelativo. Em vez disso, gritava “hambúrguer e Coca-Cola” para o altifalante que lhe respondia com guinchos incompreensíveis. Pagava com moedas já contadas. Enfiava o saco na mochila e seguia até à área de serviço na A19.

Estacionava sempre no mesmo lugar. Era uma das grandes vantagens. Havia sempre estacionamento (e gratuito). Tirava então a mochila (com o saco do MacDonalds) e preparava-se para fazer mais um turno até à meia-noite. Só assim, conseguia pagar as prestações do carro que tinha comprado no verão passado.

Quando as horas eram mortas, ou não havia clientes, tirava da mochila o livro do Saramago (que levava para todo o lado) e lia mais umas páginas do “Ensaio sobre a Cegueira”. 

Romeu sabia que a vida não era nenhuma “Julieta”. E mesmo que fosse uma “Julieta” não tinha pais ricos. Entre a universidade e a área de serviço ia tentando equilibrar a vida. Como um malabarista.

Às vezes parava a meio de uma página da “Cegueira”. Ficava a olhar para o reclame luminoso da bomba de gasolina e pensava na cegueira dos colegas. Ria-se então sozinho. Abanava a cabeça e murmurava entre dentes — Como é fácil enganar os outros.


@esmeralda  4 Abril 2011


Nota: Baseado num exercício da EC: criar uma personagem

12 abril 2011

Kate

Livros por ler, de Pedro de Payalvo (retirada daqui)


Não lhes resiste. Seja biblioteca ou livraria nunca de lá sai sem companhia.
Esquece que o tempo se perde. Capítulo após capítulo viaja a épocas desconhecidas, conhece personagens para as quais deseja roubar as cores ao arco-íris e pintar-lhes um final feliz; para outras apenas deseja ter, à mão, uma borracha para as apagar da história. Vive intensamente aventuras que não são as suas. Sofre e ri. Assusta-se e deixa-se contagiar pela magia das palavras.
A última página de cada livro sabe à nostalgia do último dia de férias. Um cair da tarde inspirador que se deseja eterno.
No final, e antes de guardar o livro na estante, reserva sempre algum tempo para se despedir dele. Uma nova viagem está prestes a começar!

[Exercício EC - O traço de uma personagem]

07 abril 2011

Pesadelo

Desespero, de Bruno Moreira (retirado daqui)



Regresso, vezes sem conta, ao inferno onde durante muito tempo fui. Não passei de um fugitivo.
O calor dos dias intermináveis, a vegetação a agredir-me o corpo encharcado de medo e o eco dos corpos inertes perdidos para sempre naquele labirinto, fragmentos de histórias inacabadas povoam-me e não me libertam.
Acordo, sentado na cama, com uma angústia que me toma.
Lá fora chove…
Arrepio-me de frio e, depressa, aconchego-me nos cobertores, aninho-me junto ao teu corpo quente. Concentro-me na tua respiração para apaziguar esta tormenta que me invadiu e me impede de dormir. Pouco a pouco o tumulto dissipa-se.
Ao longe troveja, percebo-o pelo clarão que estilhaça na janela grande do nosso quarto. Porém, apesar deste pesadelo, anseio, mais do que ontem, que o amanhecer tarde em chegar.
O dia rompe a linha do horizonte, denso, cinzento como as minhas olheiras. Mal dormi. Chegou o momento da partida e sou mais um que sobe as escadas do navio, rumo ao desconhecido continente africano. Até já? Até sempre? Não sei, é cedo demais para o saber.

[O meu 1.º exercício de EC - Transformar um sonho numa história]

31 março 2011

Esperando Com O Coração na Boca

Helena mexeu-se na cadeira. Inconfortável. Cruzou e descruzou as pernas já dormentes e olhou para o relógio. Pendurado na parede desbotada. Onze da manhã! Que chatice! Pensou. Já estava ali desde as nove. Tinha entrado nervosa. Apressada. Munida de um papel e de incertezas. Uma mulher pequena e magra mandou-a sentar numa cadeira. Espetou-lhe uma seringa no braço. Sugou-lhe o sangue para dentro de um vidrinho. E com um ar seco disse: Espere na sala por favor. E foi-se embora com o tubito deixando-a sozinha, a olhar para a pequena televisão. Desbotada. Como as paredes da sala.

Agora ninguém lhe dizia nada. Limitavam-se a passar por ela com as suas batas brancas, abertas. Como as asas cortadas das galinhas prontas a serem depenadas. E por falar em galinhas. Já eram horas de fazer o almoço. O Joaquim vinha sempre almoçar a casa e o frigorífico estava vazio. Os miúdos, esses…. Almoçavam na escola. Ainda bem. Era menos uma preocupação. Já bastava o caniche nervoso que a irmã tinha deixado. Ainda por cima urinava pelos cantos da casa. Ou papagaio irritante que o Joaquim tinha trazido da Guiné. Barulhento. Incomodativo. Para não falar dos gatos persas que largavam pêlo por todo lado. Enfim! Uma trabalheira.

E agora isto!

O médico tinha dito que não devia ser nada. As análises eram apenas uma precaução. Mas isso também tinha dito o outro médico. Quando andava com hemorragias depois do nascimento do Miguel. E o que aconteceu? Acabou por ser operada. Seis dias infernais no hospital e a casa de avesso. E se fosse mais do que um simples caroço?

Helena estremeceu! Tirou da mala pela milésima vez o telemóvel. Não havia mensagens. E porque havia de ter? O Joaquim nunca lhe telefonava e os miúdos só quando precisavam de qualquer coisa. Suspirou. Voltou a meter o pequeno aparelho na mala. E se fosse cancro? Não tinha sido a Tia Elvira que  morreu de cancro? Coitada. O que ela sofreu. Apagou-se em menos de seis meses.  Quem tomaria conta dos miúdos. O Miguel ainda era tão novo. E o Joaquim? Quem lhe iria passar as camisas a ferro e preparar o almoço todos os dias?

Limpou as mãos suadas à saia. Amarrotada. Endireitou-se na cadeira. Tentou pensar no que ia fazer para o jantar. Bacalhau cozido “com todos”? Não. Ainda tinham comido peixe ontem. Talvez passasse pelo talho do Sr. António e comprasse uns bifinhos de peru. Se calhar era melhor mandar uma mensagem ao Joaquim a dizer que fosse almoçar fora. Já era quase meio-dia e continuava ainda ali. Especada. Olhando para televisão. Vazia. De coração na boca.  

De repente a porta abriu-se.

Helena parou de respirar. O Bata Branca erguia-se à sua frente. Enorme. Assustador. E nas mãos… o resultado dos exames!  

Entre por favor!


@esmeralda - 29 Mar 2011

21 fevereiro 2011

Sombras… nada mais!

Era o paraíso! Visto do lado do mar o panorama é maravilhoso: os rochedos em cutelo, fragas vivas, em alcantilados, cortados a pique, até às minúsculas praias, rendilhadas de enseadas. (…) Por toda a parte arbustos, nascidos no vento, fazem-se árvores, aproveitando o orvalho e a geada que ficou da noite. Esconderam-se e erraram nas suas sombras, como noutros tempos os ermitãs e pensadores, homens acossados e animais feridos. Entre as pedras cobertas por musgos e habitando as celas estreitas do Conventinho da Arrábida, santuário alcandorado no meio da encosta virada a sul, (…). Mas, nas noites de temporal, com o vento inclemente e duro, com a chuva impiedosa a entrar pelas árvores, pelos musgos e encharcando a terra, os medos acoitam-se nas fragas. São as noites dos lobos, dos carneiros chacinados e dos foragidos. Em nenhum lugar a noite é mais noite e o negrume mais negro. Quando a madrugada chega e se não há nevoeiro, o sol rompe as trevas e com os seus raios rasantes vai amolecendo a desgraça. Por fim, o mar fica tranquilo.

João Sena, autor do livro Sombras… nada mais!


vi este excerto no facebook (casa das letras, acho), como apresentação do livro mencionado. guardei porque me parece um exemplo excelente de: descroção, atmosfera, "unidade de efeito". por isso o partilho aqui.

17 janeiro 2011

A Menina que Tinha Medo de Voar

O voo atrasou outra vez. Os passageiros impacientes aglomeravam-se juntos ao balcão da companhia aérea. Já era a segunda vez naquele dia que os voos para Londres eram adiados. Condições climatéricas - diziam. Fortes nevões. Gelos nas pistas. Impossibilidade de aterrar. Enfim! Resignada, Marta soltou um suspiro e procurou um lugar para passar as próximas horas.

Eram 3 da manhã e tudo o que ela queria era estender as pernas cansadas em qualquer lugar. Encontrou uma cadeira vazia. Arrumou as malas junto aos pés. Tirou o portátil. Abriu a garrafa de água e preparou-se para escrever. Mas não conseguia. Gargalhadas infantis perturbavam a sua concentração.

Levantou os olhos do ecrã. Sentada na cadeira da frente uma menina negra não parava de tagarelar. E ria! Ria alto. Com gargalhadas cristalinas que feriam os ouvidos. Não devia ter mais de oito anos. Vestia uns jeans justos enfiados numas botas Hello Kitty e uma camisola cor-de-rosa. Tinha dois totós escuros e arrebitados, coloridos por dois ganchos, igualmente Hello Kitty e cor-de-rosa. Os olhos castanhos, grandes, brilhavam visivelmente excitados. Nas faces morenas.

Marta fechou o portátil e olhou para a menina que… ora ria. Ora falava. Ora escorregava do assento. Ora fazia uma espécie de dança na ponta das botinhas Hello Kitty. Que irritante! Pensou Marta aborrecida. Queria escrever e  a  menina dos totós Hello Kity não deixava. E porque é que será que a mãe não lhe chamava à atenção? Resmungou Marta. Sim, porque devia ter mãe, não? E olhou com um ar enfadado para a mulher de calças pretas e blusa colorida sentada no outro lado. Perto da menina. Mas seu olhar foi ignorado. A mulher lia pacatamente um livro. Indiferente aos gritinhos excitados da menina.

Cansada. Irritada. Marta guardou o portátil e cruzou as pernas num gesto impaciente. Não era hoje que ia escrever. Não com a Hello Kitty aos saltos e pulos como um macaquinho das pilhas Eveready.  Aborrecida, levantou-se e foi deitar fora a garrafa de água, vazia. Tropeçou com uma hospedeira, apressada. Realmente hoje não é mesmo o meu dia. Pensou Marta com um cerrar de dentes.

Desculpe. Escusou-se a rapariga de farda.
Não faz mal. Respondeu Marta, tentando ser gentil. Lançou um olhar furioso ao ecrã do aeroporto. Faltava ainda 2 horas para o avião partir. Se é que iria partir. Suspirou outra vez. Comprou outra garrafa de água e voltou ao assento.

Sentou-se, e puxou de um livro. Espero que a miúda me deixe ao menos ler. Pensou Marta. A miúda? Nem um som. Nem uma gargalhada. Marta sobressaltou-se estranhando o silêncio. Será que se calou finalmente?

Olhou á volta. E vê a hospedeira apressada sentada ao lado da Hello Kitty que… já não saltava, nem tagarelava, nem dançava, nem gargalhava. Limitava-se a estar sentada, muito direita, muito quietinha, ao lado da rapariga fardada que lhe segurava a mão.

O altifalante soou. Chamando os passageiros para embarcarem em várias línguas. A hospedeira levantou-se. Segredou algo á menina que se levantou também. Hirta. Com o olhar cheio de medo, deixou-se levar pela mão estranha. Rumo ao desconhecido, naquela sua primeira viagem.

Marta viu-as desaparecerem no interior do terminal. Olhou para o relógio. Eram 5 da manhã. Ainda faltava uma hora. Tirou outra vez o portátil para fora. E preparou-se, mais uma vez, para escrever.

@esmeralda - exercicio de EC
Janeiro 2011

13 janeiro 2011

A francesa...



Sentou-se delicadamente, cruzando as pernas e pousando os sacos num amontoado brilhante e multicolor. Deviam estar cheiinhos de presentes para a família, o animal de estimação, as amigas mais próximas e os arredores do seu roupeiro. Tinha um ar todo fino e requintado, mas satisfeito, ou não estivesse de barriguinha cheia das compras nas lojas duty free.
Roía as unhas como um se fosse um esquilo a descascar uma bolota e a ponta branca era fruto da manicure francesa, já gasta. Observava os passageiros do aeroporto, como se estivesse no último andar da Torre Eiffel. O seu olhar era azul metálico, carregado de rímel azul-escuro, e o risco, estilo Cleópatra, estava bem delineado. O cabelo era ondulado, carregadinho de tinta loira, mas o tom até nem era dos mais berrantes. No entanto, não deixava de ser piroso. As botas de cano alto, cheias de aplicações e enfeites em feltro, pareciam uma árvore de Natal enfeitada por uma criança. As mulheres olhavam para ela com inveja e os homens, lançavam-lhe um olhar felino, com segundas e terceiras intenções. A menina negra parecia admirá-la e o Mr. Mistério, por detrás dos seus óculos escuros, magicava com toda a certeza uma forma de a abordar. Eu estava a ficar enjoada com o cheiro do perfume da senhora. Em breve, ia com certeza, transformar-me em bacalhau da Noruega... Estava há três horas à espera do voo para Londres, onde ia dar mais uma palestra acerca de motivação e coaching. Estava delirante, pois era uma oportunidade fantástica de expandir a minha empresa. Mal pensei no meu encontro com o meu querido detective Poirot, toca o telemóvel da francesa e deita por terra as minhas pertenções de leituras christianas. A senhora toda fina, vinha de França de certeza, ou não tivesse ela, uma t-shirt preta, bem justinha, com o típico estampado de letras brilhantes e o coração no meio, que diziam: "I love Paris." Foi o fim do meu sossego livresco, pois a francesa não se calou mais ao telemóvel, durante uma hora. “Que teria aquela árvore de Natal francesa para contar, durante uma hora...e ainda por cima em Francês, a língua que me arranha os ouvidos.” Mas o pior de tudo foi o desfile de moda que ela fez durante essa hora, zumbindo de um lado para o outro, como se fosse uma abelha, mesmo à minha frente. O Mr. Mistério estava deliciado, e todos os os machos men paravam para a admirar nas suas jeans Levi´s, super justinhas. A menina negra começou a imitá-la, mas  a mãe depressa a  proibiu. Resolveu ficar amuada a observá-la.
"Que irritante era tudo aquilo!" – pensei – " e o perfume era tão enjoativo...ai, ai...eu já me estava a passar!"
Felizmente anunciaram que o voo para Londres ia partir daí a dez minutos. Fiquei aliviada…até me aperceber, quando me sentei no avião, que o raio da francesa estava sentada mesmo ao meu lado. "Oh, não, vou morrer sufocada com esta snobe!"- pensei eu...mas de repente, ela perguntou-me o meu nome...


Se calhar vou continuar esta ideia...daqui a dias...vamos ver...depende da disposição..gostei desta ideia dos aeroportos...mas acho que o meu narrador está na 1.ª pessoa...apesar de falar da personagem na 3.ª...fiquei um pouco confusa, mas era esta a perspectiva que queria dar...não se se era bem isto que se pedia...


Exercício » Narrador


"Imagine que se encontra na sala de espera de um aeroporto internacional, de madrugada, aguardando a chegada do seu voo para Inglaterra, e rodeado de outros passageiros."

Narrador: primeira pessoa

Personagem: "Um homem alto e musculado, cabelo cortado à escovinha, óculos escuros, algumas cicatrizes no rosto, sem um dedo numa mão, fato azul-escuro, olhando constantemente em redor, e apenas com uma pasta negra como bagagem."



Aquela pirralha negra está a irritar-me cada vez mais, aos pulos e aos guinchos como um caniche. Se não fosse o estarmos num aeroporto europeu, com tantos seguranças, tirava o Colt da pasta e metia-lhe um balásio mesmo no meio dos olhos! Oh, se não metia! Como seria lindo ver o seu sangue de negra a formar uma poça cada vez maior no chão de mármore, e o seu corpinho tinhoso e escuro a cobrir-se de formigas. Pena não estarmos em África!...

A falta que sinto daquelas missões, onde tudo era possível e quase ninguém se importava; e os poucos que chegaram a importar-se... tau!, um balásio, e é vê-los a encherem-se de moscas. Aquilo lá na terra dos pretos é o novo Far West, é lá que me sinto bem: nos capins, nos bares de putedo cobertos de pó — sim, os bares cobertos daquela estúpida poeirada castanha que se nos cola à pele, misturada com o suor, até parecemos uns raios duns pretos; e as cabritas, com a cara coberta de pó branco, escanzeladas, mas com bons cus e umas mamas arrebitadas. Aquilo lá é que é, foda-se!, não é aqui na Europa, metido num fato emprestado, a fazer recados a uma puta metida a patroa.

Raios a partam! Aquela ruiva de figura sinuosa e mais cicatrizes no focinho do que eu bem que me tramou. É esperta, a puta! Lá nisso não posso deixar de a gabar... Esta ida a Inglaterra para lhe comprar "a cena" ou lá que merda é que este dinheiro vai pagar, está a sair-me pior do que uma ida ao inferno. Aposto que tem aqui algum capanga para me vigiar. Se o descubro... caralho!, meto-lhe um balásio no meio dos olhos! E raios me partam se quando voltar a África não trato da saúde à puta da ruiva! Oh, se não trato... E depois, é ver-me a comer camarões do tamanho de panados e a beber cerveja até rebentar. Isso é que vai ser!

Diabos levem a preta! Voltas a olhar prà'qui nem sei o que te faço...

Preciso de relaxar; tu controla-te, pá. Aquela jovenzinha de collants vermelhos e t-shirt da Hello Kitty é que me aliviava bem. Vem ao papá, vem! Miau! Levava-a ao WC e fazia-a guinchar como um caniche; oh, se fazia! Putinha boa, destas não há em África... Muito gosta ela de ter as unhacas na boca, eu dava-lhe com que se entreter; oh, se dava! E ai dela que me mordesse... Metia-lhe um balásio! Mesmo no meio dos olhos! Metia, metia!...

Tau! Já está.
E nem doeu nada, pois não?...

12 janeiro 2011

Achtung, bitte!

No se lo pierda, no se lo pierda!

Deve gostar de aeroportos, de ver tudo e de tudo.Ou então habituou-se.Não pára de olhar para as pessoas por detrás dos óculos de sol. Qué tío! Por certo é guarda-costas de alguma celebridade. Esteve em algum cenário de guerra e agora descansa, bem pago! Não tem ar de quem se esfalfa muito. Não se lhe vêem os olhos, mas parece estar bem acordado, ao contrário da maioria. Não mete medo, mas o ar dele até pode intimidar algumas pessoas.
A miúda dos sacos não está a gostar do que vê. A pequenita dá uma corrida até ele e aponta para a mão.
" Só tens quatro dedos, eu tenho cinco!"
" Yeap!"
"Porquê?"
" You wait and see, kiddo!"
" Mãeeeee, o senhor chamou-me querida!", diz a Trancinhas, aos saltos.


Um homem agarra na criança. Outro grita:
"Mãos ao ar! Está preso!"

O incêndio na escola do meu coração: memórias soltas da minha infância

Lembro-me de adorar ir à escola e de transformar o início de cada ano novo escolar numa azáfama mágica, como a dos duendes em vésperas da entrega dos presentes de Natal. A ansiedade de comprar os livros novos e o desejo insaciável de ter uma mochila, um estojo, uma borracha ou uma simples caneta nova, para levar comigo no primeiro dia de aulas, faziam o meu coração mudar de cor, tal como acontecia com as folhas das árvores, naquela mudança de estação.
Recordo-me de passar muito tempo na escola, onde a minha mãe trabalhava – a ler, a desenhar, a colorir, a recortar, a colar – e sobretudo a ouvir as conversas daquelas pessoas, que já não tinham a minha idade. Pareciam  sempre  tão apressadas e nervosas. Apesar de tudo isto, não me lembro do meu primeiro dia de aulas e confesso que as minhas memórias de infância são como um dia de nevoeiro no país do chá e das bolas de neve.  A escola sempre foi a minha segunda casa e já não me lembro do primeiro dia que lá entrei, pois devia ser um bebé de colo.
A minha mãe conta que em no ano em que entrei para o pré-escolar, fiz uma birra enorme e fartei-me de chorar, porque não queria lá ficar. Já não me lembro disso, mas recordo-me bem das cenouras que a minha amiga dinamarquesa comia e da caixinha de areia onde brincávamos horas infinitas. Ahh…também me lembro bem de adorar brincar!!! O meu pai repete vezes sem conta que quando me chamava para regressar a casa, depois de um longo dia de brincadeira, eu dizia que não estava cansada, porque não tinha brincado nada. Na verdade, lembro-me de ser criança, mas já não me lembro da criança que fui. As fotografias são muitas...e isso ajuda a enriquecer as recordações. Tenho saudades desse tempo, que já não volta, mas sinto-me feliz porque aconteceu!
Recordo bem o dia fatídico em que cheguei à minha antiga escola primária – a escola do meu coração –  e vi as labaredas de fogo a consumirem o edifício como se fosse uma caixa de papel. Essas malditas labaredas perseguiam-me como se fogem dragões saídos de um filme de ficção científica. Eu estava triste e cansada de correr de um lado para o outro para as tentar afastar da escola. Os meus colegas de turma  gritavam muito e as lágrimas escorriam-lhes pelo rosto  como cascatas limpídas e tranparentes. Os bombeiros lutavam contra aqueles fantasmas vermelhos, com os jactos de água das suas mangueiras compridas e velozes, que me faziam lembrar serpentes encantadas.  De pijama e roupão,  os pais das crianças agradeciam o facto do incêndio ter sido de noite e de não estar lá ninguém dentro. Quando lá entrei, horas mais tarde, depois dos bombeiros terem apagado o fogo, estava tudo em cinzas. O cenário era de destruição. Estava tudo negro e desconfigurado e eu já não reconhecia a minha sala, nem a minha cadeira, nem os meus cadernos novos, cheios de belas composições escritas à mão.  Comecei a ouvir a sirene dos bombeiros já longe, mas quando dei conta, acordei e reparei que era o despertador, que me libertava deste pesadelo recorrente.


Resolvi escrever acerca deste meu pesadelo de criança, pois pareceu-me mais interessante e do que aquele que  escrevi na aula, com o qual não fiquei satisfeita!

Feliz ano novo de 2011 para todos!!!!!!!!!!!

11 janeiro 2011

I N F E R N O

ou...

O que sentes quando a noite cai e o sono não vem?



Neste espaço exíguo, movo-me com a dificuldade de um rato exilado no mais recôndito e imundo emaranhado de túneis. Estes canais — com cheiro a putrefacção, manchados de vómito e cravejados de insectos — não são subterrâneos, escavados por animais que vivem à noite. São passadiços metálicos, cujas paredes são contentores construídos pelo homem com a função única de albergarem o que a sociedade quer o mais longe possível dos seus lares e, se possível, esquecer. O calor intenso, que torna o cheiro insuportável, penetra a jorros pelas fendas estreitas e viscosas que me permitem ter uma parca noção do espaço circundante: lixo — toneladas de desperdício humano.

Eis o meu cárcere: um gigantesco labirinto de contentores maciços que escondem a porcaria que ninguém quer. Condenado a ruminar em solidão os meus pensamentos abjectos, sinto-me, por vezes, tentado a empurrar um contentor e evadir-me. Sei que teria forças para movê-lo, mas... terei a coragem — ou mesmo a vontade — para regressar à torrente de asséptica humanidade?

Este lugar, por muito repugnante que seja, conhece-me, aceita-me. Nas suas tortuosas entranhas, encontro sempre onde me esconder, quando ouço algum dos camiões aproximar-se para se livrar da carga sórdida; há múltiplos recantos ao abrigo do sol escaldante do meio-dia, ou do vento gélido que sopra nas noites invernosas. Sei onde passa um rego de água escura onde, às vezes, para além de algum bicho boiando na superfície gordurosa, encontro pequenas bolas de sabão e espuma perfumada que me fazem lembrar as minhas brincadeiras de infância, nos regatos ladeados de ervas, funcho e margaridas, junto do grande tanque de pedra, da aldeia, onde a minha mãe lavava a roupa com sabão Clarim.

Sei, em cada altura do ano, onde encontrar todo o tipo de répteis rechonchudos e as mais variadas aglomerações de insectos: dos crocantes ao agridoces, dos completamente negros aos transparentes e delicados como filigrana. Conheço de cor os locais com maior probabilidade de encontrar uma ave acabada de tombar — por doença, idade, ou tédio. Não raramente, do cimo dos três metros de altura dos contentores, caem objectos com algum interesse lúdico, ou perfumados com algum cheiro sintético que eu já havia esquecido.

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A CASA: ou o convite ao interior de um pesadelo


Quero acordar e não consigo. Entro em pânico e olho à minha volta. Desnorteadamente.
Ao longe, vejo uma CASA. Caminho na sua direcção. Ou antes, tento caminhar, porque as pernas pesam como chumbo. Mas continuo a andar. Teimosamente. Penosamente.

A CASA está agora mais perto. Assustadoramente perto. E é enorme. Parece uma mansão vitoriana saída de um filme qualquer do Alfred Hitchcock. As paredes negras e frias escondem segredos e as janelas, arqueadas e arregaladas como olhos gigantes causam-me arrepios. As árvores nuas sussurram…ou será que suspiram? Quero fugir. Quero sair dali. Mas a CASA chama-me e os seus portões de ferro forjado abrem-se como um convite.

Hesito. Olho para trás e vejo apenas a escuridão. Apenas A CASA com os seus portões escancarados, à espera de mim. Lentamente, com o medo a escorregar pelas pernas, entro na CASA que me engole.

Vejo-me agora num salão de mármore onde crepita uma lareira. Sinto o calor derreter e o medo invadir o meu coração gelado. Sento-me no cadeirão de veludo branco que surgiu do nada, como um gesto de alívio. Já não quero acordar. Quero ficar ali para sempre. Aninhada no cadeirão. Vendo as chamas a estalarem e a deixar o calor envolver-me como um abraço terno.


Oiço um som. Uma gargalhada que emerge como uma bolha de ar. Viro a cabeça num gesto brusco em direcção ao som. Sigo a gargalhada com os olhos e encontro, enroscada num canto uma criança. Sem sexo nem idade, apenas uma criança que ri. Sorrio. Levanto-me e caminho para ela estendendo os braços. Mas ela já não está ali. Corre agora por um corredor sem fim, cheio de portas. E eu corro atrás dela. Chamo por ela. Pergunto-lhe: onde vais? Mas oiço apenas as suas gargalhadas como resposta e continuo a correr.


Corro agora sem parar e reparo com horror nas cobras que infestam o caminho. Rastejando e enrolando-se nos meus pés. Tento sacudi-las com pontapés furiosos, mas elas prendem-me os pés com os seus corpos repelentes. Escorregadios. Desesperada continuo a correr.
A criança perde-se ao longe e confunde-se agora com a CASA. Desvanecem-se ambas num horizonte violeta. Tento ainda alcança-las num esforço derradeiro, mas já não vejo nada.


Tudo está agora silencioso.


Só oiço o palpitar do meu coração. E o despertador que insiste em soar teimosamente nos meus ouvidos.

06 janeiro 2011

Princípio do princípio do fim

Só vejo as prateleira brancas, vazias. O vidro não me deixa ver mais nada. Vou sair daqui, tenho de sair. Grito. O grito não se faz ouvir. Ouço barulho. Estão a despejar livros, uns sobre os outros. Cheira a petróleo. O branco das prateleiras enche-se cores: amarelos, laranjas, vermelhos. Cheira a queimado. Começo a ver as folhas de papel transformarem-se em faúlhas e há risadas de vozes fortes, metálicas e ríspidas. Tudo negro. Sufoco. Caiu uma enciclopédia na fogueira acima de mim. Grito. O grito não se faz ouvir. Grito mais alto. Som nenhum.
O espírito do poeta visita-me:
" Menina, lembre-se do que eu lhe escrevi!"
Tremi com o barulho de mais livros lançados à fogueira.
Lembrei-me.
"Onde se queimam livros, mais tarde queimar-se-ão pessoas".
                                                                  Berlin, Platz der Oper, 10/5/1933

28 dezembro 2010

Descrição do meu refúgio!


As paredes pinceladas de cor-de-rosa reflectem nos cortinados e nas almofadas arroxeadas. Quando fecho a porta, sinto o aroma inconfundível da privacidade, que se mistura com o cheiro do incenso de mel e da aconchegante melodia da chuva.  
 Sou transportada para uma terra mágica, onde os livros têm asas, as caixas de música parecem bolos de aniversário e as fotografias  sabem falar. Os anjos vão voando pelas  quatro estações do ano. O mais teimoso insiste em estar sentado na montanha livresca mais alta, para ter os seus pensamentos mais próximos das nuvens. Neste lugar idílico e mágico, há neve e amores-perfeitos, eternamente primaveris; e há ainda uma rena, que não aprendeu a voar, mas que observa atentamente a bola de neve do país do chá e dos castelos. O marco do correio fica perto das cúpulas Russas e os meus sonhos estão em cada um destes objectos.  A minha rainha de rosas tem o seu altar em frente à minha cama. O arlequim e a princesa estão atentos às mudanças de humor da bailarina e da fada verde, porque afinal quer esteja só ou acompanhada, no meu refúgio tudo tem tanto significado, que perco a noção do tempo, contemplando cada nuvem sonhadora que me fornece energia e muita inspiração...
Espero que gostem...foi escrito e reescrito várias vezes e ficou assim!!!!!
Venham os comentários para quem os quiser fazer...

Boas festas,
Ana