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21 fevereiro 2011

Sombras… nada mais!

Era o paraíso! Visto do lado do mar o panorama é maravilhoso: os rochedos em cutelo, fragas vivas, em alcantilados, cortados a pique, até às minúsculas praias, rendilhadas de enseadas. (…) Por toda a parte arbustos, nascidos no vento, fazem-se árvores, aproveitando o orvalho e a geada que ficou da noite. Esconderam-se e erraram nas suas sombras, como noutros tempos os ermitãs e pensadores, homens acossados e animais feridos. Entre as pedras cobertas por musgos e habitando as celas estreitas do Conventinho da Arrábida, santuário alcandorado no meio da encosta virada a sul, (…). Mas, nas noites de temporal, com o vento inclemente e duro, com a chuva impiedosa a entrar pelas árvores, pelos musgos e encharcando a terra, os medos acoitam-se nas fragas. São as noites dos lobos, dos carneiros chacinados e dos foragidos. Em nenhum lugar a noite é mais noite e o negrume mais negro. Quando a madrugada chega e se não há nevoeiro, o sol rompe as trevas e com os seus raios rasantes vai amolecendo a desgraça. Por fim, o mar fica tranquilo.

João Sena, autor do livro Sombras… nada mais!


vi este excerto no facebook (casa das letras, acho), como apresentação do livro mencionado. guardei porque me parece um exemplo excelente de: descroção, atmosfera, "unidade de efeito". por isso o partilho aqui.

04 novembro 2010

ex.1 » descrição


Adormecido, cai do ninho para se encaixar na palma da minha mão, que o recolhe, redondo e denso. Acaricio levemente a sua penugem áspera; palpo-lhe, cuidadoso, os músculos que sinto flácidos, pela maturidade ou sonolência. Cheiro-o. Invadem-me folhas secas, sol e uma brisa bafienta; é de cativeiro mas parece-me sadio. Para me certificar, procuro-lhe a boca e depois o ânus, no extremo oposto, quase indistintos e firmes. Decido-me.

Cravo-lhe num gesto único o polegar no ventre; escorre-me pelo braço a sua seiva fresca e ácida que lambo deliciado. Rasgo-o, sem dificuldade, pela cintura, aperto-o e devoro-lhe a carne branda e a coluna vertebral, mais compacta e agre, mas igualmente saborosa.

Ainda não satisfeito com este pequeno petisco, atiro as duas metades de pele e réstias polposas para o chão, piso-as, e levanto o olhar guloso de volta ao ninho. Aposto que ainda lá encontro mais um...

março de 2010


banda sonora » Victoria's Secret commercial - "Hello, Bombshell" [tente não usar a visão...]

24 outubro 2010

Exercício 1: descrever um objecto sem utilizar o sentido da visão!

Nova versão...
Entrei apressada e ansiosa. Sentei-me no meu lugar, junto à janela. Tu corrias, veloz como uma gazela e eu, apesar de estar quentinha e aconchegada, tinha pressa de chegar à escola. De repente, senti um solavanco. Tinhas parado…e o motorista anunciou:
– Temos um pneu furado!
“Tinha que ser logo hoje” – pensei – “no dia do teste de Matemática. Não me podia atrasar, se não o professor já não me deixava entrar.”
– Vou demorar meia hora a mudar o pneu! – gritou o motorista.
“Estava perdida! Não ia conseguir chegar a tempo!” Decidi apanhar um táxi, pois ainda tinha algum dinheiro. O meu pai dava-me uma mesada. Não era lá grande coisa, mas como era poupadinha, ia dando para os gastos! Ao entrar no táxi, tive uma sensação estranha – algo me dizia que naquele dia não ia chegar à escola. Depois de algumas voltas à cidade, comecei a ficar enjoada e aflita, pois parecia que ia esquecer-me da matéria do teste. Quando ouvi uma voz parecida com a do professor de Matemática, estremeci e dei um salto gigante, que me transportou de novo para dentro do autocarro. Subitamente, questionas-te-me:
– Olá! Queres fazer uma viagem mágica? 
 Fiquei confusa, pois não sabia quem é que estava a falar comigo. “Que coisa estranha” – “devia ser do cansaço” – pensei – “ou se calhar ainda estava meia a dormir.” Belisquei-me várias vezes para ver se acordava. Fechei os olhos com muita força e fui abrindo um de cada vez, espreitando sorrateiramente como quando se joga às escondidas. Continuava tudo na mesma e tu cantarolavas aquela canção, que me era tão familiar, mas da qual já não me lembrava do nome. Estava a ficar bloqueada, não me lembrava de nada, nem da canção, nem da matéria do teste…Discutia estes assuntos com a minha memória, quando me disseste, num tom exaltado:
            – Sim, sou o Autocarro e estou a falar contigo! E fiz-te um convite: aceitas ou não?  
 Com um ar meio aparvalhado e assustado, acenei que sim. Sentia-me perdida como se estivesse no meio daquele nevoeiro cerrado, que vem do país do chá e dos castelos. Ia embarcar numa viagem mágica. Estava excitadíssima, mas tinha receio, tal como quando tinha testes de Matemática. Não sabia muito bem o que me ia acontecer, mas tinha aquela pontinha de esperança que ia superar mais aquele obstáculo.

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Seis.

Enquanto me marchava lentamente pelas costas acima, consegui distinguir-lhe perfeitamente cada umas das seis patas, rígidas mas suaves. A pressão ligeira que exerciam, ao pousarem-me na pele despida, produzia um efeito relaxante juntamente com uma sensação de calor. Estas ondas mornas, mais psicológicas do que físicas, ecoavam-me pelo dorso banhando-me de saudades dos teus dedos longos de aranha. Cheguei mesmo a sentir o arrepio das tuas unhas negras... beijando-me.

Quando chegou ao meu ombro esquerdo, não resisti a tocar-lhe o corpo ovalado: absolutamente liso e simétrico; não lhe notei qualquer diferença entre as zonas anterior e posterior. Quando a cariciei com a ponta do indicador, com aquela vontade de puxar-te a mão para os lábios e beijar-ta, a criatura ronronou-me ao ouvido, exactamente como tu o fazias quando me recolhia no teu peito perfumado de cerejas vermelhas... prontas a trincar.

Curioso, mas demasiado sonolento para acender a luz do quarto, peguei na bichinha com cuidado e guardei-a na gaveta da mesinha de cabeceira.

Puxei o lençol, que me havia descaído para o fundo das costas, e rendi-me à saudade de acordar no teu aconchego... enquanto a manhã navegava rumo à minha janela.

outubro de 2010