O voo atrasou outra vez. Os passageiros impacientes aglomeravam-se juntos ao balcão da companhia aérea. Já era a segunda vez naquele dia que os voos para Londres eram adiados. Condições climatéricas - diziam. Fortes nevões. Gelos nas pistas. Impossibilidade de aterrar. Enfim! Resignada, Marta soltou um suspiro e procurou um lugar para passar as próximas horas.
Eram 3 da manhã e tudo o que ela queria era estender as pernas cansadas em qualquer lugar. Encontrou uma cadeira vazia. Arrumou as malas junto aos pés. Tirou o portátil. Abriu a garrafa de água e preparou-se para escrever. Mas não conseguia. Gargalhadas infantis perturbavam a sua concentração.
Levantou os olhos do ecrã. Sentada na cadeira da frente uma menina negra não parava de tagarelar. E ria! Ria alto. Com gargalhadas cristalinas que feriam os ouvidos. Não devia ter mais de oito anos. Vestia uns jeans justos enfiados numas botas Hello Kitty e uma camisola cor-de-rosa. Tinha dois totós escuros e arrebitados, coloridos por dois ganchos, igualmente Hello Kitty e cor-de-rosa. Os olhos castanhos, grandes, brilhavam visivelmente excitados. Nas faces morenas.
Marta fechou o portátil e olhou para a menina que… ora ria. Ora falava. Ora escorregava do assento. Ora fazia uma espécie de dança na ponta das botinhas Hello Kitty. Que irritante! Pensou Marta aborrecida. Queria escrever e a menina dos totós Hello Kity não deixava. E porque é que será que a mãe não lhe chamava à atenção? Resmungou Marta. Sim, porque devia ter mãe, não? E olhou com um ar enfadado para a mulher de calças pretas e blusa colorida sentada no outro lado. Perto da menina. Mas seu olhar foi ignorado. A mulher lia pacatamente um livro. Indiferente aos gritinhos excitados da menina.
Cansada. Irritada. Marta guardou o portátil e cruzou as pernas num gesto impaciente. Não era hoje que ia escrever. Não com a Hello Kitty aos saltos e pulos como um macaquinho das pilhas Eveready. Aborrecida, levantou-se e foi deitar fora a garrafa de água, vazia. Tropeçou com uma hospedeira, apressada. Realmente hoje não é mesmo o meu dia. Pensou Marta com um cerrar de dentes.
Desculpe. Escusou-se a rapariga de farda.
Não faz mal. Respondeu Marta, tentando ser gentil. Lançou um olhar furioso ao ecrã do aeroporto. Faltava ainda 2 horas para o avião partir. Se é que iria partir. Suspirou outra vez. Comprou outra garrafa de água e voltou ao assento.
Sentou-se, e puxou de um livro. Espero que a miúda me deixe ao menos ler. Pensou Marta. A miúda? Nem um som. Nem uma gargalhada. Marta sobressaltou-se estranhando o silêncio. Será que se calou finalmente?
Olhou á volta. E vê a hospedeira apressada sentada ao lado da Hello Kitty que… já não saltava, nem tagarelava, nem dançava, nem gargalhava. Limitava-se a estar sentada, muito direita, muito quietinha, ao lado da rapariga fardada que lhe segurava a mão.
O altifalante soou. Chamando os passageiros para embarcarem em várias línguas. A hospedeira levantou-se. Segredou algo á menina que se levantou também. Hirta. Com o olhar cheio de medo, deixou-se levar pela mão estranha. Rumo ao desconhecido, naquela sua primeira viagem.
Marta viu-as desaparecerem no interior do terminal. Olhou para o relógio. Eram 5 da manhã. Ainda faltava uma hora. Tirou outra vez o portátil para fora. E preparou-se, mais uma vez, para escrever.
@esmeralda - exercicio de EC
Janeiro 2011


