Mais um dia. Bocejei. Olhei furtivamente para o relógio que tremulava uma da manhã. Poisei o livro com um gesto cansado. Tirei os óculos. Atirei-te um beijo mentalmente e mergulhei na escuridão.
De repente senti o frio roçar a pele. Estremeci. Virei o rosto num gesto mecânico. No canto do quarto vislumbrei umas escadas de pedra. Negra pelo tempo ou pelos pesadelos. Avancei. E num movimento lento como que em câmara lenta, comecei a descer os degraus gastos. Um a um. Sentindo o polido do granito nos meus pés descalços. Gelado. Escorregadio. Entranhando-se na minha camisa de noite branca. Longa. Agarrando-se ao meu corpo com uma luva de látex.
Continuei a descer. Arrepiando a cada passo. Os meus pés doíam. O meu corpo gritava “pára”! Mas só conseguia pensar em ti. Em descer mais um degrau. E mais outro. Na direcção ao teu rosto que pairava ao fundo das escadas.
Chamei-te. Mas o teu nome perdeu-se na imensidão das escadas. Sem eco. Estendi as mãos e tentei tocar-te. Encontrei apenas vazio. Não vás! Gritei. Mas nada saiu da minha garganta rouca. Só o silêncio. E os teus olhos escuros a dizerem-me Adeus!
